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RUPTURAS: A PRODUÇÃO CINEMATOGRÁFICA NA CHINA CONTINENTAL

Por Anderson Correia da Rocha

Desde a revolução cultural em 1949 que a China tem construído seu próprio sistema de produção e distribuição de filmes banindo completamente os filmes norte-americanos no ano seguinte. Levando em consideração o ponto de vista dos chineses de que o cinema é visto como um mercado cultural nada mais natural do que trabalhar em sua proteção blindando-o contra qualquer tipo de invasão estrangeira, e o cinema desde sempre ligado majoritariamente aos filmes americanos era um território mais do que fértil para tal invasão.  Dessa forma passou a ser a função do partido comunista chinês cuidar de tudo o que chegava não só às casas da população chinesa como também nas telas de cinema sendo possível com a fundação da China Film Corporation um grande monopólio da indústria cinematográfica do país. O órgão cuidava inclusive da importação de filmes estrangeiros, um mercado que permaneceu por muito tempo inexplorado apesar do assédio dos grandes estúdios americanos.

Foi apenas em 1994 que a China importou seu primeiro filme norte-americano, O Fugitivo (The Fugitive, 1993) de Andrew Davis, com base no sistema de revenue-sharing um sistema onde o distribuidor e o exibidor negociam a porcentagem que cada um receberá referente à bilheteria. Com o passar dos anos esse sistema, que importava apenas 10 filmes, passou a 20 filmes e a tendência é que cresça ainda mais devido aos mais diversos fatores como o crescimento exponencial de salas de cinema no país – só no último ano foram mais do que 5.000 novas salas de cinema e um crescimento de mais de 27,51% em relação a 2012 – e a entrada da China na OMC – Organização Mundial de Comércio. E logicamente que eles não querem parar por aí. Com uma indústria que cresce cada vez mais e com um faturamento doméstico expressivo o objetivo é que a China não seja uma nova Bollywood (um caso de sucesso nacional mas irrelevante no resto do mundo) e que tenha um cinema reconhecido e rentável mundialmente, principalmente em solo americano.

O primeiro passo foi dado com a realização de “Flores do Oriente” (Flowers of War, 2010), de Zhang Yimou um cara que goza de prestígio mundial tendo feito cinema desde os anos 80. O filme, orçado em aproximadamente 100 milhões de dólares, reconstitui um infame episódio da guerra entre a China e o Japão, foi estrelado por um famoso ator norte-americano e teve 40% dos diálogos em inglês. Uma aposta aparentemente certeira. Indicações vieram, sendo a do globo de ouro a mais notável, e o cinema chinês estava um passo mais perto do seu sonhado reconhecimento, não o crítico, pois desse já goza há um bom tempo, mas como indústria de grandes filmes e de entretenimento mundial, passando por cima das barreiras culturais. Em 2012 o plano continuou com “De Volta a 1942” (Yu Jiu Si Er, 2012) outro drama histórico com apelo ao grande público e ao que parece o céu é o limite. 

O filme mais caro da história da China.

FLORES DO ORIENTE, O filme mais caro da história da China.

 Ao parar para pensar de forma mais cuidadosa no funcionamento da indústria chinesa anos atrás, todos os projetos deveriam passar pelos estúdios oficiais que por sua vez eram comandados pelo SARFT – Administração Estatal de Rádio, Cinema e Televisão – que controlava além dos lançamentos e distribuição de filmes o mercado de home vídeo, não havia o estatuto de produtor independente como há no Brasil, por exemplo. O órgão estatal tinha, e ainda tem o poder de veto e censura. Só para a compra de negativos o filme teria que ser aprovado pelo órgão que, aprovando-o, ou seja, se estivesse de acordo com a ordem vigente, o projeto estaria liberado. Ainda assim teria que receber sinal verde de uma comissão especializada que ao assistir aos filmes finalizados aprovariam ou não a produção verificando se foi feita alguma mudança naquilo que havia sido prometido no roteiro. Naturalmente temas subversivos como a homossexualidade ou críticas ao governo em qualquer instância desde que seja à China contemporânea eram devidamente vetados. Vendo por esse lado é perfeitamente crível supor que haviam cineastas descontentes que atuavam e ainda atuam a margem da legislação imposta pelo governo.

Apenas em 2001 foi instituída uma nova lei que autorizava produtores independentes a se dirigirem ao Departamento de Cinema para pleitearem uma permissão de produção, o que resultou no término do monopólio dos estúdios, desenvolvendo-se um setor que flutua entre os dois lados da moeda. Ou seja, passou a existir um híbrido entre o cinema de autor e o cinema considerado “oficial”. É aí que entra a chamada 6ª geração do cinema chinês.

Como a geração anterior capitaneada pelo já citado Zhang Yimou viveu os tempos da revolução cultural de Mao onde deviam prestar serviços no campo durante um tempo pré-determinado era esperado que apresentassem um olhar romanceado do campo e do povo chinês. Filmes como “O Sorgo Vermelho” (Hong Gao Liang, 1987) e “Lanternas Vermelhas” (Da Hong Deng Long Gao Gao Gua, 1991) são um bom exemplo disso. O grupo que veio depois profundamente descontentes com a situação da China e seu governo autoritário não poderia ser mais diferente dos cineastas anteriores. Criou-se um cinema diferente, urbano que buscava explorar os problemas das grandes massas e afastar-se dos grandes dramas históricos que construiu um imaginário do cinema chinês no ocidente. Daí a necessidade de separa-los em gerações.

Em “Prazeres Desconhecidos” (Ren Xiao Yao, 2002), de Jia Zhang Ke há um curioso diálogo entre o protagonista, uma espécie de camelô que vende DVDs piratas em sua bicicleta, e um cliente que lhe pergunta se ele tem filmes de arte chineses como “Plataforma” (Zhantai, 2000) e “Love Will Tear Us Apart” (idem, 1999) respectivamente os filmes anteriores de Zhang Ke e seu diretor de fotografia Yu Lik-Wai. Uma gag bastante esperta por parte do diretor, mas que não deixa de ter sua parcela de amargura, pois tais filmes nunca veriam a luz do dia, evidenciando o sistema de produção chinês, sendo a pirataria a única maneira de fazer circular os filmes produzidos fora dos padrões impostos pelo governo. Logicamente que houve uma espécie de ruptura entre essas duas formas de fazer cinema, os cineastas independentes tinham que recorrer a negativos contrabandeados e posteriormente enviados para o exterior para serem montados e mesmo empreendendo tanto esforço seus realizadores sabiam que seus filmes nunca seriam vistos pelo público desejado: os jovens chineses, pois eram filmes feitos por e para jovens.

 

O divisor de águas da Carreira de Zhang Ke

PRAZERES DESCONHECIDOS, O divisor de águas da Carreira de Zhang Ke 

Zhang Ke é um realizador de status tendo prêmios importantes como o Leão de Ouro no Festival de Veneza e Melhor Roteiro no Festival de Cannes e trabalhou por muito tempo na clandestinidade como todos os cineastas independentes que faziam seus filmes nos anos 90. Foi apenas com “O Mundo” (Shijie, 2004) que ele recebeu apoio do estado e mesmo seu filme mais recente “Um Toque de Pecado” (Tian Zhu Ding, 2013) tendo sido produzido em estúdio e aclamado pela crítica mundial teve sua exibição proibida na China por carregar uma crítica velada ao capitalismo e suas consequências na sociedade chinesa. Isso revela a verdadeira situação da indústria cinematográfica de lá. Eles convivem com os ditos rebeldes, mas ainda assim não hesitam em mostrar quem tem o poder.

Ironicamente essa é a parcela da produção que mais coleciona premiações mundo afora. Enquanto há de um lado, superproduções bancadas pelo governo que esbanjam grandes orçamentos e esmero técnico há o outro lado da moeda: uma geração que enfrenta todas as dificuldades que lhes são impostas e que nos apresenta filmes “feios”, “pobres”, mas cheios de paixão e consequentemente apaixonantes.

 

 

O CINEMA DA CORÉIA DO SUL

Por Barbara Carvalho

A Coreia do Sul foi um país esquecido, comparado e confundido pela Coreia do Norte. Essa confusão fez com que o ocidente não mantivesse os olhos para a produção nacional, veremos que, passaram-se anos até que algum filme, cineasta ou crítico fossem vistos e aclamados pelo publico de festivais mundo à fora. Só a partir de 1990 que cineastas como Kim Ki Duk, Park Chan-Wook Hong Sang-soo, Lee Chang-dong, Bong Joon-ho ou o crítico Chung Sung-ill tiveram seus nomes ligados à qualidade e sensibilidade que os filmes coreanos são hoje em dia.

O cinema de Coreia nasceu em 1919, ano que foi produzido seu primeiro filme, “A Detective’s Great Pain” de Kim Do-san. Porém, em meio a guerras e mudanças no governo, a indústria cinematográfica da, agora, Coréia do Sul, apenas ganhou força a partir da década de 1950. Com os lançamentos do filme “Madame Freedom” de Han Hyung-mo e das primeiras revistas dedicadas ao cinema. O povo tão reprimido utilizou o cinema como forma de expor sua visão politica, se rebelar, ter uma voz.

As revistas Fim World e International Fim foram responsáveis por mudar a relação do publico com os filmes e, principalmente, com as estrelas do cinema. Muito espaço era utilizado para entrevistas, fofocas e perfil dos artistas. No começo dos anos 1960 o star system da Coreia do Sul era comparável ao Hollywoodiano.

Desde os anos 1960 o governo tinha certo controle com os filmes através da censura, porém só a partir do fim da década de 1970 até meados de 1980, essa situação começou a atrapalhar os cineastas. Os filmes precisavam passar pela aprovação antes e depois de serem filmados, e também poderia haver a visita da comissão de censura a qualquer momento durante as filmagens. Nos anos 1980, protestos derrubaram Park Chung-hee do poder e instalaram uma forma de governo mais democrática.

“Até então, nosso cinema tinha pouco acabamento. Houve um clima entre os jovens diretores de se juntar e fazer uns filmes melhores. Durante a ditadura militar, os artistas foram muito agredidos e não puderam criar de acordo com sua imaginação. Foi preciso um intervalo.” Chan Wook Park.

Sem a ditadura controlando a indústria cinematográfica, os cineastas e cinema da Coreia do Sul foram crescendo e se desenvolvendo até chegar aos anos 1990, quando o país teve o que, geralmente, chamam de “Segunda Era de Ouro” do cinema nacional, é dito que o primeiro filme dessa nova era seria do diretor Je-gyu Kang, “Shiri” – que desbancou, inclusive, Titanic nas bilheterias da Coréia do Sul. Novamente revistas sobre cinema fizeram bastante sucesso, chamadas “Cine21”, “Screen” e “Kino” – a primeira focada nas celebridades e resenhas dos lançamentos da semana, algo mais comercial, e a última sendo dedicada a um público mais culto e ligado ao cinema mundial.

Nessa Segunda Era de Ouro, cineastas coreanos começaram a ser prestigiados em festivais de todo o mundo, diretores como Kim Ki-duk, Chan-wook Park e Lee Chang-dong, receberam prêmios em Berlim, Cannes e Veneza. A Coreia começou a conquistar espaço no cinema mundial, ampliando sua influência além das fronteiras culturais e geográficas as quais esteve presa durante todo esse tempo. Começando lentamente a levar seus produtos aos outros países do leste da Ásia, onde as barreiras de linguagem, costumes e tradições era menor.

Os filmes que arrebataram as bilheterias tanto da Coreia do Sul como os países próximos geralmente serviam a uma pratica de mercado onde os atores eram a parte mais importante deles. No caso, o que acontecia era que um ator virava o produto da indústria, ele serviria para cativar o público, então apareceria não só em filmes como em novelas, comerciais, essa pessoa deve gravar um cd, vão existir toy arts e vários tipos de merchandising ao redor dessa pessoa. Esse caso virou uma indústria a parte, tanto que hoje em dia, na Coreia do Sul existem universidades que ensinam os garotos ou garotas à virarem ídolos – especialmente teens, e a formarem, inclusive, boybands.

 Os filmes que ganharam espaço nos festivais ao redor do mundo eram, geralmente, filmes de autor que acabam não demonstrando ao publico internacional uma visão mais ampla dos filmes que estão sendo produzidos no país. É preciso também compreender que da época de lançamento e até pouco tempo atrás, filmes de diretores como Im Kwon Taek e Kim Ki Duk não são sucessos em seu país de origem. Em 2006, Kim Ki Duk chegou a publicamente reclamar que o publico da Coreia de Sul não se importa com seus filmes, tanto que seu filme de 2005, “The Bow”, exibido em Cannes passou em apenas um cinema do país.

Percebemos que há dois pontos de divisão no cinema da Coréia do Sul, o primeiro é que mesmo com o crescimento da produção nacional e valorização de tais filmes, ainda há uma barreira com os filmes de certos cineastas – quanto mais de autor e menos comerciais, maior é a rejeição. Para remediar tal situação, a indústria cinematográfica começou a analisar o padrão dos filmes que interessavam ao publico, e então podemos notar que, cada vez mais, os filmes coreanos resignificam os gêneros.  Os diretores não perdem sua voz para a indústria e vontade do publico, a grande questão é como o cineasta pode aplicar sua ousadia estética, seu olhar ou sua inventividade visual a serviço dos códigos de gênero.

Há vários filmes que tem êxito ao balancear os códigos dos gêneros e a visão do cineasta, vemos “Oldboy” filme de 2003, dirigido por Park Chan-Wook e que compõe a “Trilogia da Vingança” – que conta com “Mr. Vingança” (2002) e “Lady Vingaça” (2005). Um Thriller onde a vingança é retratada de forma extremamente crua, que mesmo com o plot sendo o mais clichê, homem é acusado da morte da mulher e quer descobrir quem tramou isso contra ele, consegue surpreender o público da Coreia do Sul e de todo o mundo, chamando até atenção de Hollywood – recebeu um remake em 2013 por Spike Lee, que foi um dos grandes fracassos do ano e dito pelos fãs do original como uma afronta ao filme. O jornalista do The Guardian, Steve Rose, analisa as diferenças do filme original com o que as convenções do ocidente esperam do filme de Spike Lee. Ele começa apontando que na lei da Coréia do Sul não é permitido usar armas de fogo, por isso a proteção do personagem principal é um machado, e não uma arma como seria o normal – Park Chan-Wook chegou a comentar, antes da estreia do filme, o quanto estaria ansioso para saber como as cenas seriam resolvidas numa indústria onde um tiro resolve tudo. O fato da Coreia do Sul, aponta o jornalista, viver com o terror de uma guerra que separou seu país e a possibilidade da Coreia do Norte viver se armando para uma futura, pode mexer com a psique dos coreanos, e faz com que as storylines de seus filmes sejam imprevisíveis e assustadoras. Um terceiro ponto é que os gêneros tão bem definidos em Hollywood não se aplicam ao cinema coreano – o próprio Oldboy além de thriller e ação, é classificado como drama.

No mesmo ano, Park Chan-Wook lançou seu primeiro filme Hollywoodiano, “Segredos de Sangue”, suspense influenciado por “A Sombra de uma Dúvida” (1943) de Hitchcock, que teve um sucesso relativo, porém deixou os fãs do cineasta se perguntando se o filme teria sido melhor se ele tivesse mais liberdade criativa, como acontecia na Coreia.

Atualmente vemos que os diretores provenientes da segunda era de ouro da Coreia do Sul se preocupam em manter o nome do país e a qualidade cinematografia em vista pelo mundo todo, existe certo receio de voltar ao esquecimento pelo Ocidente. Temos o exemplo Park Chan-Wook, Bong Joon-ho e outros diretores organizando o Mise-en-Scène Short Film Festival, que tem como principal foco revelar novos diretores que experimentam com a ideia de gênero e experimentação, que tanto fez bem ao cinema coreano. Filmes como “Save the Green Planet” do diretor Jang Jun-hwan que mistura screwball, sci-fi, conspiração interplanetária com thriller corporativo em roupagem videoclípica. Também essa preocupação de manter um diálogo com Hollywood e com as grandes produtoras asiáticas. Podemos notar que os diretores não se orgulham apenas de seus próprios filmes, mas também do senso de comunidade que foi criado na Coreia do Sul para manter o cinema deles vivo.

 LINKS SUGERIDOS:

Blog sobre toda a história do cinema coreano (em Inglês)
Entrevista com Park Chan-wook na Mostra de Cinema de São Paulo em 2013
Diferenças entre Oldboy de Spike Lee e Park Chan-wook (em Inglês)
http://cinesplendor.com.br/cinema-de-genero-a-coreia-dos-personagens/
http://www.contracampo.com.br/75/coreiadosul.htm
http://www.theguardian.com/film/2013/nov/29/old-boy-remake-south-korea-cinema. (em Inglês)
http://www.rottentomatoes.com/m/stoker_2013/ (em Inglês)

 

JAPÃO: STUDIO GHIBLI

Por Alan Campos Araújo

A animação no Japão sempre foi bastante sucedida, com animes como Akira, Pokémon, Digimon, Dragon Ball, sendo verdadeiros fenômenos mundiais. Criado em 1985, o Studio Ghibli se tornou um dos maiores estúdios de animação do mundo, tendo como um de seus fundadores uma das figuras mais importantes do cinema mundial, Hayao Miyazaki. Com a maioria dos filmes sendo dirigidos Miyazaki, o estúdio em seus quase 30 anos de carreira se mantém bem sucedido perante público e crítica mundial, tendo acumulado diversos prêmios. Além de filmes, o estúdio produziu diversos curtas metragens, comerciais e filmes para TV, porém as obras que mais fazem sucesso são seus filmes para cinema. Tendo A Viagem de Chihiro, 2001, como o anime de maior bilheteria de todos os tempos, alcançando mais de 250 milhões de dólares mundialmente e sendo o filme de maior bilheteria no Japão.

O nome do estúdio vem do vento oriundo do mediterrâneo. A metáfora é feita fundadores por causa da vontade de “soprar um novo vento” na indústria de animação japonesa. E de fato, os filmes do Ghibli conseguem oferecer experiências satisfatórias tanto para crianças como para adultos. As histórias possuem temas bastante variados, tais como humanismo e pacifismo, como é o caso do filme Túmulo dos Vagalumes, Isao Takahata, 1988 que mostra as consequências da guerra sob o ponto de vista de dois irmãos. Já um dos maiores sucesso do estúdio, Meu Amigo Totoro, Miyazaki, 1988, se trata das aventuras de uma menina no bosque ao redor de sua casa, traçando um retrato belo dos “dias infinitos” da infância.  A Princesa Mononoke e A Viagem de Chihiro, 1997 e 2001, ambos dirigidos por Miyazaki se consagraram com as obras mais maduras do estúdio. Amados tanto por adultos como por crianças, esses filmes intimistas conquistaram dezenas de prêmios em seus respectivos lançamentos, tendo Chihiro ganho o Oscar de melhor animação, sendo o único anime a conseguir tal feito, e o Urso de Ouro no festival de Berlim. Outro fator que contribui bastante para o sucesso do Ghibli são seus personagens. O universo dos seus filmes é povoado por criaturas bizarras que são criativamente desenhadas, como o gato ônibus de Meu Amigo Totoro, ou o Dragão branco de A Viagem de Chihiro. Outros animais incluem diversos felinos e pássaros que conquistam o coração de diversas crianças. Porém os personagens que mais recebem simpatia do público são as heroínas de personalidade forte, em sua maioria crianças, que arriscam tudo em busca de aventuras, ou a fim de satisfazer sua curiosidade.

Um das características mais importantes para o alto padrão de qualidade das animações da Ghibli é o entendimento que acontece entre os produtores e diretores em relação ao corte final. O resultado final é feito, tendo-se visado exclusivamente à qualidade artística do material, não retirando ou remontando devido a limites impostos. Essa politica já gerou diversos rumores sobreo estúdio, o mais famoso é que a Miramax, que distribuiu o filme internacionalmente, queria fazer cortes em Princesa Mononoke para o lançamento nos Estados Unidos, O Ghibli respondeu enviando uma Katana, a espada dos Samurais, ao estúdio, com os dizeres “Nada de cortes”. Esse tipo de controle pelo material que o Ghibli detém permite que seus espectadores assistam a suas obras como elas foram originalmente pensadas e concebidas, garantindo o respeito e a confiança dos fãs. A Ghibli também adota uma política de apenas produzir um anime por ano, não relacionados a series de TV, para valorizar e dar a cada filme seu tempo de produção e exibição. Tornando a expectativa de um ano entre cada anime um evento bastante esperado pelos seus apreciadores. Uma jogada bastante arriscada que até agora tem se provado bem sucedida.

Obviamente todo o sucesso da Ghibli não se deve exclusivamente ao talento e criatividade de seus animadores. O estúdio reconhece a importância da televisão e de outros meios midiáticos na distribuição, e até realização, de filmes de sucesso. Com diversos filmes feitos para a TV sendo distribuídos para diversas regiões da Ásia, a popularidade desses filmes só tende a aumentar. Ressaltando que a maioria dos filmes japoneses exportados para o restante da Ásia são animações, por isso não faria sentindo o Ghibli não se beneficiar dessa plataforma midiática maciça.  Com conexões e acordos com meios televisivos é fácil entender o porquê dos filmes serem tão valorizados no Japão e fora dele. E como vêm diversas outras oportunidades, como a fabricação de bonecos e bichos de pelúcia, a promoção do filme pelas regiões também aumenta os contatos de parceria para futuros negócios. Porém um dos aspectos que o Ghibli não utiliza, ou utiliza pouco, é a exportação do material original para outras mídias, tais como videogames. Também não ocorre com frequência a expansão do universo narrativa para outras artes, como mangás.

Hoje em dia já é possível afirmar que o Ghibli é o único estúdio capaz de rivalizar com os estúdios da Disney, sendo até constantemente comparado e Miyazaki sendo aclamado como o Walt Disney moderno. Ambos os estúdios possuem uma parceria desde 1996, onde a Disney distribuiria produções do Japão fora da Ásia, enquanto que os filmes do Ghibli recebiam investimentos da empresa americana. As comparações não se limitam apenas a aceitabilidade que os filmes desses estúdios possuem com o público, e sim que ambos souberam muito bem se adequar a novos tempos e novas tecnologias. A utilização de computação gráfica nos filmes vem desde 1992, com o filme Porco Rosso- O Ultimo Herói Romântico, Miyazaki, que também se tornou a maior bilheteria do Japão naquele ano. Enquanto que o constantemente citado Mononoke se tornou inovador no uso do CGI, cinco anos mais tarde de Porco Rosso, e no uso das cores digitalizadas. A absorção de novas tecnologias sempre obteve boa resposta do público, como demonstra o resultado nas bilheterias alcançadas no Japão e no ocidente.

 No festival de Veneza de 2013, enquanto mostrava o inédito The Wind Rises, Miyazaki anunciou que esse seria seu ultimo filme e que estava se aposentando definitivamente do cinema. A saída de Miyazaki encerra um dos capítulos do Ghibli, que com o passar dos anos só vem cuidado ainda mais do legado de suas animações. Isso inclui a construção de um Museu do estúdio, inaugurado em 2001 em Tokyo. A produção teatral da adaptação de Mononoke entrou em cartaz em 2013, expandindo a história para novas audiências. E atualmente os filmes estão sendo mais valorizados do que nunca, diversos críticos e jornais enaltecem o Papel único da Ghibli na animação mundial. Sendo que duas produções recentes dirigidas por Miyazaki, O Castelo Animado e Ponyo, respectivamente de 2004 e de 2008, receberam aclamação mundial quando foram lançadas no festival de Veneza. Em 2014 o estúdio pode repetir sua história, já que The Wind Rises está indicado ao Oscar de melhor animação. Todos esses filmes mostram que a qualidade dos filmes não foi alterada em nada em comparação aos clássicos dos anos 80 e 90, é torcer para que a qualidade continue com a saída de Miyazaki.

Fontes:
Wikipédia: Hayao Miyazaki, Studio Ghibli.

Links Recomendados:
Página oficial do museu Ghibli. (em Inglês)
Informações sobre o museu. (em Inglês)