CINEMA ALEMÃO

Por Ariana Gondim

A cinematografia alemã, começou a dar seus primeiros passos pouco antes do início do século XX, e já enxergava o cinema como um comércio de espetáculos. Com curtas-metragens que iam de 3 a 5 minutos, e eram exibidos em feiras e vaudevilles, foi comparado a mesma categoria de entretenimento que o circo.

Com a virada do século, a relação com o mundo cinematográfico ganhou uma nova maneira de ser visto. Buscando corresponder as expectativas do novo público, a burguesia – acostumada a freqüentar teatros e óperas, foram construídos verdadeiros palácios do cinema, com direito a camarote, assentos estofados, fosso para orquestra e preços diferenciados nos ingressos.

O aumento do interesse pela sétima arte fez com que a os filmes narrativos ficassem mais longos. Esse crescimento refletiu diretamente na indústria do cinema que a partir dessa nova demanda segmentou-se em setores de produção, exibição e distribuição. Desse momento em diante o setor foi ficando cada vez mais profissionalizado, com direito a aparições nos jornais, organizações supra-regionais e lançamentos de livros, além das transformações na forma de se produzir, que passou da fase manufatureira para o modelo industrial de divisão cooperativa de trabalho entre produtor, diretor, cenógrafo, ator e músicos.

Esse crescimento quantitativo dos filmes fez com que os cineastas buscassem uma padronização do seu produto desenvolvendo a diferenciação de gênero e a expressão psicológica como critério estético dominante que se utilizava de movimentos de câmera, edição de imagens, fusões dentre outros aspectos que diferenciavam da produção até então conhecida.  Apesar de produzir bastantes filmes, a indústria Alemã não conseguia suprir a demanda das salas de exibições e até 1914 somente 10/20% dos filmes exibidos no país eram produções nacionais, enquanto a maioria das importações vinham de países como França, Itália, Dinamarca e Estados Unidos. Esse panorama não durou muito, pois a Primeira Guerra Mundial eclodiu e houve uma proibição geral as importações de filmes estrangeiros.

Dentro desse novo cenário o Estado começou a demonstrar seu interesse pela produção cinematográfica como instrumento de guerra psicológica, originando agências governamentais que produziram filmes de propaganda, recrutamento, cinejornais e longas de entretenimento patriótico. O comprometimento do Estado foi tanto que em 1917 foi criado o Bild-und-Filmamt (Bufa) para coordenar  e produção e distribuição, chegando a dotar de patentes militares os integrantes das equipes de filmagem. No mesmo período, investidores privados fundaram a Deutsche Lichtbild Gesellchaft (DLG) – para filmes publicitários e a Deutsche Kolonial-Film gesellschaft (Deuko) – que propagava o colonialismo alemão. Ao fim desse ano originou-se a Universum-Film Aktiengesellschaft (UFA) que foi a primeira corporação de cinema integrada da Alemanha, cujo capital vinha tanto do governo, quanto de bancos e investidores da indústria pesada e visava garantir uma indústria financeiramente viável.

A UFA investiu em instalações de produção, estúdios e laboratórios, além do esquema de distribuição em sua própria cadeia de cinemas. Outro aspecto relevante é que o interesse do Estado pelo cinema fez com que a indústria adquirisse um novo status junto à elite cultural, convencendo os investidores que era uma risco econômico aceitável. Como exemplo a esse cinema da UFA temos o filme Madame Bovary/Madame Dubarry (Ernst Lubitsch, 1919) que conseguiu romper o boicote induzido pela guerra a filmes Alemães nos Estados Unidos e Europa. Daí em diante, ao longo dos anos 1920, o país se esforçou para ser um dos principais competidores do cinema Hollywoodiano e toda essa criatividade e energia fez com que surgissem os filmes de arte expressionistas, que contribuíram com a história do cinema mundial. Embora representassem apenas 5% dos filmes produzidos no país, significou um momento de vanguarda  e desafiou o sistema de Holywood com um produto artístico que quebrava o glamour norte-americano e construíram imagens não realistas que representavam patologias psicológicas.

Em resposta, os Estados Unidos começaram a oferecer altos valores para que os profissionais alemães trabalhassem em sua indústria. Somando a isso a abertura do mercado de exibição para filmes estrangeiros e as tensões políticas, temos um colapso na indústria, que para se estabilizar entraram em acordos de capitalização com as majors americanas a exemplo, temos o Acordo Parufamet entre a Paramount, MGM e UFA e garantia acesso as salas de exibição da UFA em troca de um investimento urgentemente necessário. Essa jogada não conseguiu salvar a companhia que se viu no dilema de como competir com o cinema Hollywoodiano sem americanizar seus filmes e em um campo de forças desiguais.

Em 1931 com a queda nas vendas dos ingressos devido ao colapso do mercado internacional, houve uma proposta de estabilidade econômica que seduziu os cineastas, por parte dos nacionais-socialistas. Dentre as medidas de reforma houve o estabelecimento de uma instituição bancária semigovernamental (filmkreditbank) para subsidiar a produção de cinema, além da criação de uma organização profissional que era controlada pelo Estado (Reichs filmkammer) onde todos os profissionais deveriam se filiar. Todos esses protocolos revelaram que, na verdade o Estado estava tentado uma “descontaminação moral” através da censura de todo material contradizia a ideologia nacional-socialista – inclusive, oferecendo créditos estatais em troca de controle político do conteúdo – , além de restringir a judeus e pessoas de esquerda o acesso ao mercado de trabalho cinematográfico e banir oficialmente a crítica cinematográfica.

Apesar do investimento estatal os custos de produção aumentavam ao mesmo tempo que a Alemanha perdeu seu mercado estrangeiro de exportação o que acentuou a crise de uma indústria já abalada. Com o expansionismo militar  e a ocupação de países como Áustria, Silésia, República Tcheca, Polônia, França, Bélgica e Holanda houve um aumento no público e capacidade de produção/exportação que permitiram que a carreira do filme cobrissem seus custos.

Em 7 de maio de 1945 o Comando Militar alemão se rendeu e o país ficou politicamente dividido entre Alemanha Oriental e Ocidental, onde cada zona era responsável por gerir suas próprias indústrias. Az zonas Ocidentais foram reorganizadas a partir do modelo norte-americano voltado para o entretenimento e a necessidade de comercialização, enquanto a zona soviética era utilizada como meio preferencial para a reeducação da população.

Após a reunificação do país em 1990 e com um novo panorama de espectadores e forma de se consumir entretenimento a indústria cinematográfica alemã atua tanto na produção de comédias – que representam o gênero de maio aceitação no país comercialmente – como em filmes de arte com potencial de exibição, além de filmes encomendados para a televisão – um forte nincho do mercado que procuram novos diretores e roteiristas e tornou a Alemanha em líder europeu na produção de produtos para a televisão doméstica.

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