UM BREVE HISTÓRICO DA INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA BRITÂNICA

Por Paulo Fernando de Sá Vieira

Entre alguns estudiosos e críticos é consenso dizer que o cinema britânico deixou muito a desejar em vários aspectos e em vários momentos de sua história, desde o final do século XIX até os dias atuais. Seja por causa do funcionamento da indústria ou pela estética de seus filmes, salvo alguns períodos específicos destes pouco mais de 110 anos de cinema, muito se tem a falar dos americanos na Grã-Bretanha e pouco do cinema genuinamente britânico. São dois os principais fatores que promoveram tal reputação: a ausência de uma identidade nacional na tela grande e a dependência – principalmente – financeira de financiamento americano para produção de filmes.

Após uma fase inicial (1896 a 1910), na qual o cinema não passava de mera atração nas feiras de entretenimento britânicas, que aconteciam em ruas ou em grandes salões, e o cinema não possuía nenhum tipo de relação com a ideia de indústria ou arte, em 1912 já era possível distinguir as diferentes áreas de sua cadeia, isto é, produção, distribuição e exibição. Eis a tríade que desde o início não conseguiu estabelecer o equilíbrio mínimo necessário na balança da indústria britânica. Isto porque a distribuição e a exibição de filmes sempre levaram boa parte dos investimentos, enquanto a produção nunca chegou perto de ser um setor prioritário. Desde as décadas de 1920 e 1930, as majors americanas e as grandes corporações britânicas – Associated British Film Corporation (ABPC), Rank e a Gaumont-British – se estabeleceram no mercado e, entre altos e baixos, iriam permanecer em sua cúpula até os anos 1980. Este é o ponto inicial da imersão do poder hollywoodiano na Grã-Bretanha, onde através do financiamento e da presença maciça de seus filmes, os americanos fariam papel bastante importante tanto economicamente quanto no estabelecimento de uma suposta cultura cinematográfica nacional.

A partir dos anos 1930, então, dois grandes polos surgem e disputam constante batalha pelo espaço no cinema, as majors americanas e as corporações britânicas, as primeiras investindo na distribuição de seus filmes internacionalmente e a segunda buscando uma fatia de mercado no seu próprio país. Porém, a desvantagem sofrida pelas empresas britânicas era enorme, visto que várias majors de Hollywood financiavam a produção e distribuição de seus próprios filmes e cobriam todos seus custos no mercado doméstico, enquanto a Rank e a Gaumont, por exemplo, estavam longe de conseguirem tal façanha. Isto implicava a exportação de filmes hollywoodianos para Grã-Bretanha a um preço baixo, além de maciço investimento em marketing. Ou seja, aos exibidores britânicos nada interessava a exibição de filmes de seu país e a propagação da cultura cinematográfica nacional, mas pura e simplesmente o lucro, que era atingido com a aquisição dos grandes sucessos americanos a um preço baixo e garantia de alta nas bilheterias. No outro lado do mercado, as corporações britânicas não conseguiam cobrir os custos de suas produções no mercado interno e tentavam fazê-lo externamente, o que raramente resultava em êxito, dada a injusta competição com uma Hollywood que arrecadava unicamente lucros, tendo seus custos já cobertos. Na sarjeta dessa batalha, os produtores britânicos independentes tentavam produzir filmes que prezassem pela cultura britânica e pela divulgação de costumes regionais, enquanto Hollywood invade as salas de cinema de seu país.

Diante de tal situação, durante quase cinco décadas – entre 1930 a 1980 – os britânicos adotaram quatro grandes estratégias para se livrarem do império norte-americano:

1)    Aliança com Hollywood na distribuição de filmes americanos.

Esta primeira medida de cunho totalmente impatriótico consistia em espécie de parceria estabelecida entre Grã-Bretanha e Estados Unidos, em que o primeiro abria quase completamente suas salas de cinema para exibição de filmes americanos. Tratava-se de garantia de lucro em bilheteria, pouco ou nada importava a exibição de filmes nacionais, ou seja, poucas medidas protecionistas como tributos de importação ou cotas de exibição.

 2)    Produção de filmes nacionais para competir com Hollywood.

Ironicamente, as corporações britânicas investem os lucros obtidos na exibição de filmes americanos em grandes produções nacionais, na tentativa de fazer frente aos blockbusters americanos. Algumas produções obtiveram êxito, como Quatro Casamentos e Um Funeral (Mike Newell, 1996).

 3)    Diferenciação no mercado doméstico, explorando tradições e cultura nacional.

Diferente do pretendido na primeira estratégia, também houve a concentração de esforços de produtores independentes na produção de filmes que construíssem ou representassem a cultura britânica na grande tela. A proposta era o estabelecimento de um eixo afetivo entre o espectador e o filme, genuinamente britânico.

 4)    Aliança europeia na criação de uma política audiovisual.

A quarta estratégia diz respeito à criação de uma política audiovisual que integrasse a produção de vários países europeus pertencentes a União Europeia para fazer frente a invasão hollywoodiana. Isso implicou aumento das possibilidades de escolha de estrelas que atuariam nos filmes, maior amplitude de financiamento, quantidade extensa de técnicos qualificados na produção de filmes, mas, por empecilhos como a língua, tal estratégia não durou muito tempo.

 Depois do surgimento de várias medidas protecionistas no decorrer de várias décadas (cotas de exibição, tarifas de importação, porcentagem na receita de vendas de ingressos, renúncia fiscal etc.), na década de 1960 as grandes corporações britânicas retiram-se da produção cinematográfica e permanecem apenas nos setores da distribuição e exibição, tornando o cinema britânico cada vez mais dependente, de uma forma ou de outra, de financiamento cinema americano. Seguido desse fato, na década de 1970 os americanos decidem parar de investir em produções no exterior, o que acarreta numa diminuição drástica na produção de filmes no país, dada a total ausência de financiamento.

É neste momento, a partir dos anos 1980 à década de 1990, que dois novos personagens surgem para salvar a indústria cinematográfica britânica do colapso e mudar um pouco o sentido de sua jornada: a televisão britânica e fundos de financiamento do governo. Nos anos 1980, então, o Channel 4 começa a injetar dinheiro em produções para televisão, com custos baixíssimos de distribuição e exibição, levantando novamente a cinematografia britânica das cinzas. Além disso, finalmente, outro grande fator decisivo foi o lançamento de cofres de incentivo à cultura pelo governo britânico, e entre eles o National Lottery, que teve como consequência um boom na produção dos anos 1990. Em 2000, surge o UK Film Council, que avocaria os fundos do National Lottery e, até os dias atuais, representa a maior fonte de recursos financeiros para financiamento de filmes no UK, subdividindo-se no Premier Fund, voltado para projetos de orçamentos altos, e no New Cinema Fund, voltado para projetos mais experimentais.

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