JAFAR PANAHI: CINEASTA, LIVRE OU PRESO

Por Rodrigo S. Pereira

 Em 1995 chegou ao mundo “O balão branco”, dirigido por Jafar Panahi e escrito por Abbas Kiarostami, sendo premiado em Cannes como melhor filme de estreia. Desde então, com “O espelho” (1997) e “O círculo” (2000), Panahi entrou para o ranking de grandes diretores iranianos, equiparado ao próprio Kiarostami, a Majid Majidi e Mohsen Mahkmalbaf.

 O novo milênio trouxe muitas perturbações à vida de Jafar Panahi. Em abril de 2001, ele foi detido no aeroporto internacional JFK, de Nova York, EUA, na conexão que faria entre Hong Kong e Buenos Aires. Exigia-se que ele fosse fotografado e sua digital fosse registrada, e, recusando-se a cooperar com isso, declarando que não era um criminoso, Panahi passou algumas horas algemado, ao ser liberado, foi fotografado e enviado de volta para Hong Kong. Em 2003, o cineasta fora apreendido pelo Ministério da Informação do Irã e interrogado por quatro horas, e liberado sob recomendações de que deixasse o país.

 eu filme deste ano, “Ouro carmim”, não é o único de sua carreira que incomoda o governo iraniano quanto ao cumprimento de suas normas culturais. Este fora o segundo filme escrito por Abbas Kiarostami para a direção de Jafar Panahi, e seu segundo filme censurado, ao lado de “O círculo”. O governo demandou diversos cortes em ambos os filmes, os quais Jafar Panahi se recusou a aplicar. A circulação de ambos os filmes não foi autorizada pelo governo iraniano, o que não os impediu de concorrer em importantes festivais internacionais, premiando “O círculo” com o Leão de Ouro e “Ouro carmim” com o prêmio do júri de Cannes, Un certain régard. Desde “O espelho”, Jafar Panahi não abandonou a interação de seus filmes com o campo documentário, sendo por exemplo o personagem do entregador de pizza que protagoniza “Ouro carmim” interpretado por um entregador de pizza esquizofrênico. Em todos os seus projetos há uso enfático de não-atores.

 “Fora do jogo”, 2006, foi o filme que levou Panahi a uma confrontação direta ao governo. Já ciente de que a trama seria vetada pelos censores, Panahi submeteu um roteiro falso para obtenção da permissão de produção, necessária a qualquer filme que vá ser rodado em território iraniano. A resposta, no entanto, não foi das melhores: Jafar Panahi só obteria permissão de rodar “Fora do jogo” quando submetesse seus filmes anteriores ao corte do Ministério da Cultura e Orientação Islâmica, tornando-os adequados às normas culturais impostas pelo governo, que incluem inúmeras restrições de enquadramento, uso de luz, participação de mulheres e caracterização de personagens, como não ser permitido mostrar em filme uma vida reclusa (tradição islâmica) em uma perspectiva negativa, e antagonistas não poderem ter barba cheia.

 Apesar de “O círculo” e “Ouro carmim” ainda não terem circulado no Irã, Panahi ignorou a proposta e rodou “Fora do jogo” como tinha planejado, trocando os protagonistas masculinos por quatro meninas que se travestem para assistir a um jogo de futebol clandestinamente. As mulheres no Irã são proibidas de assistir a jogos de futebol, tanto pelo comportamento dos homens na torcida, com exaltação e uso de palavras impróprias, como pelas vestes dos jogadores, de pernas à mostra pelos shorts e braços à mostra pelas mangas curtas.

 Seguindo a lógica de “Ouro carmim”, “Fora de jogo” foi protagonizado por quatro moças que realmente eram aficionadas por futebol, e gravado durante um jogo real das classificatórias para Copa do Mundo da Alemanha. Jafar Panahi tomou cuidado para manter as gravações em sigilo, mas após uma publicação que o anunciava como diretor da produção (em vez de seu assistente, como ele estava divulgando), o governo se mobilizou para apreender os copiões de “Fora do jogo” e parar as gravações, no que não obteve sucesso.

“Fora de jogo” foi premiado com o Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri em Berlim e estava pronto para quebrar recordes de bilheteria no Irã, mas a permissão de distribuição não foi concedida. Mesmo com o pedido da Sony Pictures Classics, distribuidora internacional do filme, de que fosse exibido por uma semana para que se tornasse apto à indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Fora de jogo” permaneceu proibido no Irã. Isto não significa que não fora visto: a pirataria em DVDs é forte no país, e Panahi já declarou que de todos os seus filmes, “Fora de jogo” provavelmente foi o mais visto. Dois dias após a proibição e vinte dias antes da FIFA World Cup ’06, cópias do filme estavam disponíveis em todo o Irã.

Panahi permaneceu sob observação do governo iraniano, inclusive sendo preso, alegadamente por engano, em 2009 quando visitava o túmulo de Neda Agha-Soltan, vítima fatal da repressão dos protestos no Irã relativos às eleições daquele ano. Um vídeo de sua morte circulou internacionalmente, e seu rosto tornou-se símbolo da oposição ao governo iraniano. A prisão do cineasta foi denunciada por um blogueiro que testemunhou a apreensão, e após oito horas foi liberado, graças à pressão exercida por amigos e cineastas em todo o mundo. Abertamente politizado, Panahi neste mesmo ano organizou demonstrações de apoio ao Partido Verde do Irã no Festival Mundial de Montréal, inclusive se deixando fotografar junto a manifestantes.

O cineasta finalmente foi preso em março de 2010, sem acusações oficiais, junto a familiares e amigos. A maioria das pessoas foi liberada dentro de dois dias, e os dois que restavam além de Jafar Panahi também foram liberados 15 dias depois. Afirmando ser maltratado na prisão e receber ameaças à sua família, Panahi iniciou uma greve de fome que culminou em sua liberação sob pagamento de fiança de duzentos mil dólares para aguardar o julgamento.

Apesar do apoio de dezenas de cineastas, produtores, institutos de cinema, do Ministério de Assuntos Estrangeiros francês e outros, o cineasta foi condenado em dezembro daquele ano a 20 anos de proibição de dirigir ou escrever filmes, dar entrevistas à imprensa iraniana ou estrangeira e de deixar o país, exceto por demanda médica ou pela peregrinação à Meca prevista pela tradição islâmica, e ainda 6 anos de prisão domiciliar, os quais ainda está cumprindo. Em 2010 ele havia sido nomeado integrante do júri do Festival de Cannes, que manteve seu assento vazio em vista de sua prisão.

Em 2011 o cineasta rodou em sua casa, com a ajuda do amigo Mojtaba Mirtahmasb, “Isto não é um filme”, em que descreve o filme que tinha começado a produzir à época da prisão, faz telefonemas relativos à sua situação legal e vive seu cotidiano em casa, à companhia da televisão e de sua iguana, e com alguma comunicação com os vizinhos. O filme foi contrabandeado em um pendrive dentro de um bolo para o Festival de Cannes, onde entrou como uma exibição surpresa. O filme chegou a ser considerado para a categoria de Melhor Documentário do Oscar de 2012 (85ª edição). Com aclamação da crítica, “Isto não é um filme” figurou em várias listas de “melhores de 2012”, inclusive da renomada Sight&Sound.

Jafar Panahi foi premiado junto à advogada Nasrin Sotoudeh pelo Parlamento Europeu com o “Prêmio Sakharov por liberdade de expressão”, como pessoas que não se curvaram à opressão e priorizaram o destino de sua nação em vez do próprio. Nasrin Sotoudeh foi sentenciada de forma semelhante ao cineasta, proibida de exercer advocacia por 10 anos, e encarcerada por 6 anos (após apelo na corte; a pena inicial era de 11 anos). Tal como o cineasta, a mulher foi levada a fazer greve de fome em 2012 para que seus direitos se fizessem valer, pois seu contato com a família havia sido vetado. A greve de fome só teve fim após 49 dias.

Em 2013 a controvérsia política em que está inserido Jafar Panahi se intensificou com o lançamento ilegal de seu filme Pardé, ou “Cortinas fechadas”, no festival de Berlim, onde foi premiado com o Urso de Prata pelo Melhor Roteiro. O filme foi realizado em colaboração com Kambozia Partovi, que escrevera “O círculo” para Panahi. A exibição e premiação de “Cortinas fechadas” levou a pronunciamentos do Irã reprovando a colaboração internacional com a atividade ilegal de Panahi, e ainda o professor da Universidade de Columbia Hamid Dabashi criticou a atitude de Panahi de filmar enquanto preso e afirmou que seus dois últimos filmes seriam um recorte autoindulgente do que fazia os filmes anteriores do diretor tão interessantes. Panahi afirmara à época de “Fora de jogo” que o tema que mais lhe preocupava era a mulher na atual cultura iraniana imposta pelo governo, que extrapola as tradições islâmicas, e que seria a problematização destas imposições o cerne de sua obra. Talvez Hamid Dabashi se refira aos dois últimos lançamentos do diretor negativamente por haver neles um menor caráter expositivo e a possibilidade de uma exploração gratuita de uma controvérsia política. Neste ano, Jafar Panahi foi convidado a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Paralelamente à sua prisão, também no contexto dos protestos contra a eleição de 2009 no Irã, foi fechada a House of Cinema, associação de cerca de 60 cineastas do país então considerada ilegal pelo governo. Após as eleições de 2013, a associação foi readmitida na legalidade, mas não se sabe se a nova presidência exercerá qualquer influência no futuro de Jafar Panahi.

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