CINEMA PORTUGUES E MERCADO: CRISE NO MODELO DE FINANCIAMENTO, AUGE NA CRIATIVIDADE.

Por Txai Ferraz

Não é de hoje que o cinema português destaca-se em prestígio junto à crítica especializada. Da vastíssima produção de Manoel de Oliveira, chegando a nomes mais recentes como João Pedro Rodrigues e Miguel Gomes, a produção portuguesa conquista ano após ano importantes prêmios internacionais.

 O Festival de Curtas da Vila do Conde, tido como um dos melhores da Europa, consolida a efervescência criativa na qual o país vive. Ali costumam passar os melhores realizadores de Portugal, alavancando suas carreiras em outros festivais europeus. Em 2012, o cinema português roubou a cena no Festival de Berlim, levando para casa o Urso de Ouro para curtas-metragens (por “Rafa”, de João Salaviza) e o Prêmio de Inovação (por “Tabu”, de Miguel Gomes). Em 2013, o cineasta João Pedro Rodrigues presidiu o júri da Semana da Crítica de Cannes.

 Em contraposição à fertilidade dessa onda criativa, o cinema português enfrenta graves problemas mercadológicos. A falta de interesse governamental em fomentar de forma mais incisiva a produção chama a atenção não só pela qualidade dos filmes que são feitos apesar dos poucos investimentos, mas também por contrariar a tradição de forte intervencionismo estatal na cultura, característica de quase todos os países da Europa Ocidental.

 O próprio monitoramento da atividade cinematográfica no país mostrou-se deficiente durante anos. Tomando por exemplo os dados sobre frequência e bilheteria, observamos que estes provinham de enquentes lançadas às empresas de exibição pelo INE (Instituto Nacional de Estatística). Estas empresas, salvo exceções, se recusavam a divulgar voluntariamente dados sobre suas receitas e número de público.

 A situação só veio mudar em 2004, com a instalação de terminais informatizados nas bilheterias, quando finalmente os dados atingiram refinamento e representatividade para que estudos concretos sobre o mercado fossem realizados.

 Segundo dados do ICA (Instituto do Cinema e Audiovisual), de 2004 até janeiro de 2014, dentre os 40 filmes mais vistos em salas de cinema, apenas uma produção com participação portuguesa ocupa lugar na lista. “A Gaiola Dourada” (de Ruben Alves, Portugal/França, 2013), uma comédia de costumes sobre a imigração portuguesa na França, conquistou grande sucesso popular em Portugal, mas pouca expressividade fora do país. O êxito do filme confirma a recente tendência europeia de realizar filmes comerciais “com sabor local” como fórmula de sucesso para concorrer com Hollywood.

 Desde o início da recessão, porém, a situação tem se agravado com a constante perda de espectadores. Em 2012, o país perdeu 12,3% dos espectadores em comparação ao ano de 2011, contra 0,9% de perda apresentada no mesmo ano pelo continente europeu. Ainda em 2012 (curiosamente um ano histórico para o país no quadro das premiações internacionais), o governo congelou os fundos de financiamento do ICA e destituiu o Ministério da Cultura. Enquanto o cinema português se consolidava no exterior, o governo e o público locais lhe davam as costas.

txai1

 Se os dados do mercado não são muito animadores, é interessante observar uma característica bastante peculiar do público português. Segundo pesquisa de múltima escolha realizada em 2010 (figura 1) pelo OberCom (Observatório da Comunicação), quando questionados sobre a forma como consumiam filmes, 77% do público português revelou frequentar salas do circuito comercial. Da totalidade dos entrevistados, 12,1% disse ainda ver filmes através de festivais e cineclubes, e outros 6,9% através de escolas ou universidades.

 Os dados do OberCom confirmam que uma análise estritamente econômica não tem recursos para apreender toda a realidade de consumo no país.  Ao invés de pensar-se apenas a distribuição de filmes, surge a necessidade de pensar-se também a circulação de filmes em Portugal, levando-se em conta não apenas aspectos quantitativos, mas também qualitativos. Conhecendo-se as características do circuito alternativo, estima-se que este represente um grande aliado do cinema português, ao contrário do opressor circuito comercial.

 Se em 2012 os subsídios para produção provenientes do ICA estavam congelados, a co-produção internacional apresentou-se como uma das únicas soluções viáveis para os produtores portugueses. É o caso do exitoso filme “Tabu” (de Miguel Gomes), uma co-produção entre Portugal (50%), Alemanha, França e Brasil. Distribuído para 46 países, “Tabu” é o filme português mais vendido de todos os tempos, apesar de ocupar a singela posição de 31° filme português mais visto  em salas comerciais portuguesas entre 2004 e janeiro de 2014 (dados do ICA).

 2012 foi, sem dúvidas, um ano histórico para o cinema em Portugal, com altos e baixos para o mercado exibidor e produtores locais. Após várias tensões e lutas da classe realizadora, naquele mesmo ano foi aprovada a Lei do Cinema e do Audiovisual (Lei N.º55/2012), que estipulou que as operadoras de TV deveriam remeter ao ICA 3,5€ anualmente por cada assinante. Na prática, o montante chega a cerca de 10,7 milhões de euros, constituindo-se assim o fundo de financiamento do instituto, congelado desde 2012.

 Esperava-se que o ano de 2013 marcasse a retomada do cinema português, mas os números continuaram desanimadores. Do ponto de vista da produção (dados do ICA), apenas 4 longas-metragens de ficção foram realizados, contrariando a média de 15 longas produzidos anualmente se observado o período de 2004 até 2011. Dados oficiais sobre os números de bilheteria ainda não foram divulgados, mas estima-se que na melhor das hipóteses, tenha-se atingido o número de 12,5 milhões de espectadores, número pouco melhor que o de 2012, mas que ainda confirma o terceiro ano consecutivo de queda no número de espectadores em salas comerciais.

 O setor de produção está às beiras de um colapso. Apesar de aprovada desde 2012, a Lei do Cinema e do Audiovisual nunca foi regularizada. Há grandes embates entre o governo e as operadoras de TV, que alegam não concordar em financiar filmes sem nenhum poder de escolha direta dos projetos selecionados e incongruência do sistema com tempos de recessão econômica, entre outros argumentos. Após grande pressão, elas conseguiram que o governo português adiasse o cumprimento da lei apenas para 2014. Mas a arrecadação, que deveria ter começado em outubro de 2013, ainda não começou.

 Procurando agradar as operadoras de TV, o governo estuda atualmente retirar o artigo da lei que estabelece um reajuste anual gradativo na taxa de 3,5€ por assinante (chegando ao  teto máximo de 5€), congelando-se por consequência o teto dos investimentos na atividade cinematográfica. O impasse está longe encontrar uma resolução, e as operadoras de TV ameaçam agora iniciar uma batalha judicial contra o governo, que deve se estender pelos próximos três ou quatro anos.

 REFERÊNCIAS

 Alexandra Lucas Coelho; 2010 é o ano zero do cinema português. Disponível em http://www.publico.pt/cultura/noticia/2012-e-o-ano-zero-do-cinema-portugues-1566121. Acesso em 12/02/2014.

 Cinemax – RTP; Balanço do Box Office 2013 – Portugal e cinema português. Disponível em http://www.rtp.pt/cinemax/?t=Balanco-do-Box-Office-2013—Portugal-e-cinema-portugues.rtp&article=9912&visual=2&layout=8&tm=40. Acesso em 12/02/2014.

Cultura e Mercado; Cinema português é laureado no exterior, mas sofre cortes no país. Disponível em http://www.culturaemercado.com.br/internacional/cinema-portugues-e-laureado-no-exterior-mas-sofre-cortes-no-pais/. Acesso em 12/02/2014.

Rua de Baixo; Como financiar o cinema português? Disponível em http://www.ruadebaixo.com/financiar-o-cinema-portugues-ptbluestation.html. Acesso em 12/02/2014.

Joana Amaral Cardoso; Braço de ferro sobre taxa anual pode criar “sucessivos anos zero do cinema português”. Disponível em http://www.publico.pt/cultura/noticia/produtores-de-cinema-exigem-solucao-politica-para-sobreviver-a-falta-de-pagamento-da-taxa-anual-1607994. Acesso em 12/02/2014.

Joana Amaral Cardoso; Governo propõe alteração da Lei do Cinema para resolver não pagamento da taxa pelos operadores de TV. Disponível em http://www.publico.pt/cultura/noticia/governo-propoe-alteracao-da-lei-do-cinema-para-estabilizar-sector-e-resolver-naopagamento-da-taxa-pelos-operadores-de-tv-1618240. Acesso em 12/02/2014.

Joana Amaral Cardoso; Lei do Cinema: Governo não vai cobrar taxa anual de 2012 aos operadores de TV. Disponível em http://www.publico.pt/cultura/noticia/lei-do-cinema-governo-nao-vai-cobrar-taxa-anual-de-2012-aos-operadores-de-tv-1623446.

Joana Amaral Cardoso; Portugal é o país que mais perdeu espectadores de cinema na Europa em 2012. Disponível em http://www.publico.pt/cultura/noticia/portugal-e-o-pais-que-mais-perdeu-espectadores-de-cinema-na-europa-em-2012-1583868. Acesso em 12/02/2014.

Maria João Taborda; Cinema: para além do mercado: Contributos para novos modos de análise e reflexão. Disponível em http://www.obercom.pt/client/?newsId=373&fileName=fr_novembro_2011.pdf.  Aceso em 12/02/2014.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s