CINEMA DE ANIMAÇÃO PORTUGUÊS

Por Ricardo Duarte

 “Estávamos em 1987. Cada um de nós dava o tempo livre de que dispunha, em “A noite saiu à rua” ninguém recebeu um tostão pelo seu trabalho, era a nossa aposta, a nossa vontade de fazer alguma coisa. ” (Abi Feijó, 1999)

 São com essas palavras que o diretor de cinema de animação Abi Feijó começa um apaixonado texto falando da origem do “Filmógrafo”. Primeiro a surgir na cidade do Porto, o estúdio é responsável pela formação de uma geração de novos animadores portugueses e abriu caminho para a imensa receptividade e premiações dos curtas-metragens de animações portugueses. Curtas como “História Trágica com Final Feliz”, de Regina Pessoa, “Estória do gato e da lua”, de Pedro Serrazina, “A suspeita”, de José Miguel Ribeiro, entre outros filmes de animação de cunho autoral, possivelmente não existiriam não fosse pelo trabalho realizado por Abi Feijó e o Filmógrafo.

O cinema de animação português tem seu surgimento em 1923, com o filme “O pesadelo de António Maria”, de Joaquim Guerreiro, sendo esse uma sátira política, o que nos demonstra um ponto interessante ao mostrar que o pioneiro nacional de um gênero popularmente taxado de infantil é de conteúdo adulto e crítico. Após esse, temos um longo intervalo de quase uma década, até 1931, para o próximo filme de animação conhecido: “A lenda de Miragaia”, primeiro (e único até hoje) filme português de silhuetas animadas. Após esse há mais um longo período de produções muito esparsas e, infelizmente, sem informações nos dias atuais.

A lenda de Miragaia (1931)

A lenda de Miragaia (1931)

No início da década de 40 houve animações infantis feitas por Sérgio Luiz, mas logo depois (década de 60-70) a publicidade acabou por tomar para si quase toda a produção de animação. Um fato que pesou para essa grande importância da animação na publicidade eram as dificuldades técnicas da filmagem de certas ideias: “… naquele período (anos 60) os criativos podiam ter ideias geniais para uma campanha, mas, muitas vezes, deparavam-se com dificuldades de ordem técnica para concretizá-las. Daí os anunciantes se virarem para os “desenhos animados” (Coelho, cit.in Loureiro, 2010). Como a animação permitia uma maior liberdade e era um gênero “novo”, que atraía e fascinava o público, acabou sendo um dos métodos mais usados pela propagandas da época. Graças à essa constante utilização comercial, essa época é uma das que mais filmes de animação portuguesas são produzidos ( mais de 200). Mas desses, poucos poderiam ser considerados “cinema autoral” e é importante notar que o contexto social e político do país nessa época afetava diretamente isso: um ambiente opressor, que preferia evitar filmes que pudessem causar reflexões. Embora com todas essas forças contrárias, alguns realizadores destacarem-se por fazer animações mais autorais, talvez contando com o respaldo financeiro obtido pelas comerciais. Após o 25 de Abril (Revolução dos Cravos) e a liberdade das amarras socio-políticas prévias, esse cinema de animação autoral acaba por começar a florescer, mas o seu grande marco foi a criação do Cinanima.

O surgimento do Cinanima, em 1977, foi o primeiro evento que desencadeou o surgimento da nova geração de animação portuguesa. O Cinanima é um dos principais festivais internacionais para divulgação do cinema de animação e é realizado anualmente desde sua criação na cidade de Espinho, uma pequena cidade litorânea ao sul do Porto, já tendo 37 edições. Na sua página oficial na internet, o festival afirma sua importância na divulgação do cinema de animação:

 “A oportunidade de apresentar um filme no CINANIMA significa para muitos profissionais uma das poucas possibilidades de poder mostrar ao público o fruto do seu trabalho e esforço, para além dos privilégios a que os premiados têm direito. Todos os vencedores de prémios no CINANIMA ficam automaticamente apurados para o concurso europeu de melhor filme de animação o “Cartoon D’Or”, organizado pela CARTOON – European Association of Animated Film. Por outro lado, o vencedor do Grande Prémio do CINANIMA fica apurado para o pré-concurso às nomeações para os Óscares da Academia de Hollywood. Ao longo destes mais de 30 anos de actividade, o CINANIMA contribuiu para a criação de novos públicos para este género, permitindo que o cinema animado pudesse ser reconhecido pelo grande público como um género nobre, afastando o habitual pré conceito redutor de que os desenhos animados são para crianças, e consagrando a animação como uma plataforma de comunicação artística multidisciplinar por excelência..” (Site Oficial do Festival)

 Um dos primeiros trabalhos do grupo do Filmógrafo  foi, justamente, uma vinheta de abertura para o festival, a qual permaneceu como vinheta oficial por muitos anos. Também foi através desse festival que grandes nomes do cinema de animação portugueses começassem a surgir: o primeiro filme de Abi Feijó (Oh, que Calma!), passou no festival em 1985, mas foi com “Os salteadores” que o primeiro grande sucesso foi alcançado. Com uma grande projeção internacional e quatorze prêmios, esse filme foi um grande impulso para muitos dos que trabalharam nele (vários sendo novatos no mundo da animação e tendo a chance de trabalhar com profissionais mais experientes). É importante notar que os créditos de “Os Salteadores” são compostos pelos futuros grandes nomes do gênero.

Primeiro Cartaz do festival (1977).

Primeiro Cartaz do festival (1977).

Podemos ver a constante presença do cinema de animação nacional no festival e sua crescente importância ao longo da década de 90:

Fonte: LOUREIRO, Monica.

Fonte: LOUREIRO, Monica.

Esse aumento constante (acompanhado também pelo aumento da produção de animações), pode ser explicando tendo em vista o período pós Revolução dos Cravos, com a integração de Portugal na Comunidade Econômica Européia, que injetou bastante dinheiro para compensar o atraso do desenvolvimento do país comparado a outros países europeus. Esses fundos recebidos acabaram por fazer com que o país evoluísse economicamente, especialmente na década de 90 e também foi graças a eles, que houve a abertura de um Ministério da Cultura e um órgão estatal especializado em Cinema, o IPACA (atual ICA), o que possibilitou o financiamento dos filmes de animação.

Fonte: LOUREIRO, Monica.

Fonte: LOUREIRO, Monica.

Em 1996 um fato importante também aconteceu para as animações portuguesas: as criações de leis específicas de apoio aos filmes de animação, vindas pelo sucesso que o cinema de animação nacional vinha tendo na época. “ Ao se reconhecer o potencial e o relevo que o cinema de animação vem tendo no nosso país, impunha-se criar uma regulamentação própria de apoio financeiro do Estado à sua produção.” (Introdução do texto da Portaria nº. 497/96) e “Como principais novidades, relativamente aos regimes de apoio financeiro cinematográfico estabelecidos noutros diplomas recentemente publicados, salientam-se os diferentes níveis de apoio, indexados a custos de referência, previstos para a produção de curtas-metragens, de médias-metragens e de longas-metragens e de séries de animação e a entrega ao produtor, logo na celebração do primeiro acordo de apoio financeiro, de uma prestação igual a 20% do apoio total concedido, que lhe possibilitará a preparação e a montagem financeira do seu projecto.” (Portaria nº. 497/96). Essa Portaria foi revogada em 2001, com atualizações em relação às leis de incentivo e também destacando a importância que a de 1996 teve no desenvolvimento do cinema de animação nacional: “Nos cinco anos de vigência da Portaria n.º 497/96, de 19 de Setembro, agora revogada,  foi apoiada a produção de 46 obras de cinema de animação, entre as quais, e pela primeira vez no nosso país, duas longas metragens, representando um apoio por parte do Ministério da Cultura/ICAM de mais de 650 000 contos. Neste período, confirmaram-se valores criativos, técnicos e artísticos já conhecidos e revelaram-se outros novos, sendo o cinema de animação nacional frequentemente reconhecido com importantes prêmios e distinções em festivais internacionais. Pode, assim, concluir-se que o crescente apoio público à produção de cinema de animação foi uma aposta claramente bem sucedida.Com este novo Regulamento de Apoio Financeiro Selectivo à Produção de Obras Cinematográficas de Animação pretende-se prosseguir na mesma linha de orientação essencial traçada em 1996, aproveitando-se, porém, para introduzir algumas pequenas alterações de natureza procedimental ou mesmo substantiva, que a prática e uma crescida preocupação de maior rigor na fundamentação das decisões recomendam.” (Portaria n.º 1165/2001).

Após a tomada de posse de Pedros Paes Coelho, em 2011, Portugal deixa de ter um Ministério da Cultura (atitude amplamente criticada por ser um retrocesso) e isso afeta claramente a produção cinematográfica, mesmo com a ICA ainda existindo. A última atualização das leis relativas ao cinema foram criadas em 2012. Nos últimos anos ainda há a presença constante do cinema de animação, entretanto a crise econômica afetou diretamente na produção cinematográfica de maneira geral (e também na quantidade de espectadores presentes na sala). 2013 foi o ano em que menos pessoas foram ao cinema em Portugal, com uma queda de 1,3 milhões de ingressos vendidos se comparado à 2012. As obras produzidas também decaíram: de 11 curtas-metragens de animação em 2012 para apenas 2 em 2013. Podemos ver esse  processo de declínio no seguinte quadro:

Fonte: ICA

Fonte: ICA

Entretanto, mesmo com essa visível queda de força (dada provavelmente pelas questões sociais e políticas mais uma vez, como a dissolução do Ministério da Cultura e a crise europeia, que também afeta outros cinemas nacionais), a animação portuguesa continua a ser bastante aclamada: o curta “O Gigante”, uma co-produção, está concorrendo ao prêmio Goya e “Kali, o Pequeno Vampiro” também foi destaque, ganhou diversos prêmios e foi indicado ao prêmio  Annie (o “Óscar” das animações) . Então, como se encontra o cinema de animação português? Creio que a palavra “fragmentado” definiria bem. Mark Baker, realizador britânico, foi muito preciso em seu comentário que em Portugal não há uma indústria, mas sim “indivíduos”. Talvez o fato do longo processo de realização somado com o preconceito ainda existente e desconhecimento da população de Portugal com esse gênero e os altos custos de produção ajudem nessa fragmentação. Mas, entre tais problemas esses “indivíduos” fragmentados continuam a fazer um trabalho profundo, esteticamente impactante e com uma representação lusitana e que pode eventualmente, virar a regra do gênero, pois, como disse Abi Feijó: “Só na nossa experiência, nas nossas vivências, nas nossas raízes e na nossa cultura poderemos encontrar um caminho próprio e original”.

REFERÊNCIAS

LOUREIRO, Mónica. O cinema de animação português e a interdependência entre a animação comercial e a animação de autor nos anos 90. 2010, Faculdade de Arquitetura de Lisboa.

http://www.ica-ip.pt/

http://cinanima.pt/2013/

http://www.ciclopefilmes.com/abi-feijo/textos-escritos-por-abi

http://www.gmcs.pt/pt/lei-n-552012-de-6-de-setembro-lei-do-cinema-e-das-atividades-cinematograficas-e-audiovisuais

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