A RECENTE HISTÓRIA DO IRÃ E SUA RELAÇÃO COM O CINEMA

Por Tarciso Rodrigues

 A atual história do Irã, mais precisamente a partir de 1979, quando se desencadeou a Revolução Islâmica, é permeada por uma série de turbulências. Insatisfeitos com o regime absolutista liderado pelo xá Reza Pahlevi, um grupo formado por xiitas, intelectuais islâmicos, cristão, marxitas, operários, entre outros, deu inicio à revolução. Mais tarde, juntou-se a este grupo aiatolá Ruhollah Khomeini e junto com ele o ideal religioso incorporou-se, fortalecendo, assim, o processo revolucionário. Contudo, as questões econômicas, como o mercado petrolífero, eram o principal motivo da inserção do clérigo à revolta. Com o passar do tempo, a população percebeu que as questões socioeconômicas não melhoravam. Os valores do petróleo não eram compartilhados com a população e a situação de desigualdade e desemprego perdurava. O filme Hymn (1978), de Amir Naderi, retrata a história de um prisioneiro que ao sair da cadeia não consegue emprego e se depara com o não cumprimento das promessas feitas pelo atual poder. O filme foi proibido pelo governo.  O poder religioso, na verdade, além de não favorecer o IDH da população iraniana, ainda intensificou o regime opressor. Diferente do período do golpe militar no Brasil, onde o governo criou atos institucionais, como o AI-5, visando “domar” a população, o poder iraniano baseia-se nas leis islâmicas para ditar o comportamento social do país, eles até possuem legislação, porém a ultima palavra parte da cúpula religiosa. Assim, as autoridades do Irã, diante dessas ideias, incorporaram o direito de vetar todo tipo de manifestação que infringisse as leis islâmicas. Ou seja, acima de tudo, para eles está a religião. Com o tempo, novas forças vêm surgindo para derrubar esse cenário político, mas o progresso pode ser considerado mínimo. Shirin Ebadi, vencedora do Nobel da Paz de 2003, atua militante em favor da causa das mulheres e crianças que compõe este país. Mesmo sendo boicotada pelas duas facções do governo, o trabalho desta advogada e professora universitária pode ser tido como notável.

A relação Islamismo x constituição do Irã x declaração universal dos direitos humanos norteia uma discussão sem precedentes com foco na liberdade de expressão do povo iraniano. O que se nota é que o governo apoderou-se das leis islâmicas para burlar o pensamento sociocultural. Assim, focados nesta ideologia, eles acabam desfocando das questões administrativas do país. Vetando, por tanto, o desenvolvimento do Irã, em todas as áreas, inclusive na cultura.

Atualmente, apesar das poucas evoluções governamentais, o Irã ainda é um estado que oprime as mulheres e não se empenha em instruir os jovens. A população entende que há a necessidade de uma outra revolução, mas se veem desmotivados ao observarem os recentes acontecimentos históricos. No entanto, hoje pode se perceber que os jovens, na maioria da classe alta, não seguem rigidamente os costumes e regras. Práticas como ingerir bebidas alcoólicas, usar drogas e vestir roupas decotadas são usuais, ainda que feitas escondidas. A música ocidental começa a se inserir, aos poucos, nos ambientes iranianos. Com relação ao cinema, pode se constatar que algumas realizações do cinema ocidental tem chegado ao alcance dos jovens iranianos tanto por vídeos, TV por satélite, quanto pela internet. Segundo o cineasta Babak Payami, lutar contra as limitações do governo neste momento não é possível, mas ter acesso à informação, isto é. Ele exemplifica que nenhum governo ditatório conseguiu impedir as pessoas de se expressarem:

Quando as pessoas falam das limitações do governo, eu rio. Tente pará-las, você não vai conseguir. Se as pessoas quiserem, elas terão informação. Isso não funcionou com a muralha da China, não funcionou com as restrições soviéticas de controle da sociedade. Governo iraniano, americano, você não pode proibir as pessoas de se expressarem e de se comunicarem. (PAYAMI, 2003)

Mesmo vivendo uma ditadura, o período pré-revolução islâmica do Irã lhe dava com a produção cultural de uma forma bem mais satisfatória. Com o interesse de fomentar a prática da produção cultural, dando mais liberdade aos autores na realização de suas obras, a princesa Farah, mulher do xá Reza Pahlevi, criou o Kanun. O Kanun abrangia toda a elaboração cultural vigente no Irã, mas foi no cinema, com a criação de um departamento, que teve a colaboração do diretor Abbas Kiarostami, que os maiores resultados artísticos desta instituição afloraram. No período de 1970 a 1979, o cinema iraniano produziu alguns dos melhores curtas e filmes de animação de sua história. No segundo período do Kanun, que vai da revolução até 1990, mesmo com a forte repressão dos aiatolás, pode se observar alguns dos maiores filmes da história do cinema iraniano. Neste momento, os autores deram ênfase a produzir filmes com uma temática mais realista e que tratassem dos problemas sociais desta nação. Os filmes faziam, na sua maioria, criticas ao sistema de governo repressivo do Irã. Porém essas críticas eram construídas de forma metafórica. O curta-metragem de Bahram Beizaie, Travelers (1991), que conta a história de duas crianças que são exploradas em benefício de pessoas adultas, fazendo assim uma metáfora com o regime do xá, exemplifica bem os filmes deste período.  No terceiro período, que vem da década de 90 até os dias de hoje, a repressão do governo aumentou. Isso fez com que alguns cineastas buscassem por produtoras independentes para realizarem seus filmes. Este maior controle fez também com que a produção de filmes reduzisse bruscamente.  Em contrapartida, em 1998 o Irã teve seu primeiro filme indicado ao Oscar, Children of Heaven, de Majid Majidi.  E em 2012, o longa A Separação, de Asghar Farhadi, levou a estatueta. A relação entre a guerra, o regime opressor e a cultura é tão forte na sociedade iraniana que o discurso, Farhadi, ao ganhar o Oscar, sintetiza bem esses três elementos, porém, valorizando aquele raro momento em que o mundo se voltou ao Irã não pelas suas mazelas:

Neste momento, pessoas de todo o mundo estão nos vendo e estão contentes não só pelo prêmio, mas porque, em um tempo como este, no qual se fala de guerra, meu país, o Irã, está aqui por sua cultura. (FARHADI, 2012)

O legado que o cinema iraniano instaurou no espectador ocidental é latente. É interessante e até frustrante constatar que, por conta da repressão, o cinema visto pelos ocidentais representa apenas 8% de tudo que é produzido no Irã. Até porque, este cinema, em sua maioria é, de certa forma, contestador e delator dos problemas da sociedade e da política iraniana. Portanto, são obras que acabam sendo proibidas no país. Hoje, realizadores, críticos e cinéfilos de todo o ocidente buscam exaltar de forma abrangente este cinema iraniano que vos chega. Um cinema rebuscado, que teve como base a estética da Nouvelle Vague e do Neorrealismo, e que a partir desse alicerce, soube construir sua própria narrativa de forma única e essencial. Com relação à obra de Makhmalbaf, Werner Herzog diz que sua linguagem cinematográfica é muito interessante e pessoal, diferente de tudo que ele já viu. Para Herzog, Makhmalbaf foi capaz de desenvolver uma obra singular, repleta da poesia cinematográfica. Alguns teóricos-sociólogos afirmam constatar que o ser humano, quando passa por repressões, se expressa de forma mais contundente. Certamente, este é o motivo que traz tão claro a pureza incondicional e a aura de inocência vista nas realizações do cinema iraniano.

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