A INDUSTRIA CINEMATOGRÁFICA DO LESTE EUROPEU E O MODELO SOCIALISTA

Por Rodrigo Vasconcellos

A produção de cinema no leste europeu se desenvolveu de forma diferente do resto do continente, uma vez que depois da Segunda Guerra Mundial ficou sob grande influência da antiga URSS, tendo sido Polônia, Hungria e a atual República Tcheca incorporadas a União Soviética. Sendo assim, foram assimilados conceitos econômicos e culturais socialistas aos países do Bloco Oriental – como eram chamados os países do leste europeu por se tratar de um ciclo fechado -.

 Durante o período pré-guerra, a produção cinematográfica desses países era, em média, boa, equiparando-se ao oeste europeu, composto por grandes indústrias como França e Inglaterra. No entanto, nos anos 20, com o advento sonoro, a produção caiu fortemente – não havendo um investimento imediato na tecnologia de som, além de mão de obra especializada -, só voltando a se estabelecer na década de 30, onde chegou a seu auge até então.

 Com a Segunda Guerra a produção desses países foi quase nula, tendo em vista que foram palco de batalhas e conquistas de ambos os lados.

 Dentro do regime socialista a feitura de filmes estava atrelada ao conceito de “administração cultural”, havendo uma cadeia de instituições nacionais responsáveis por diferentes etapas da produção, distribuição e exibição.

 Os principais realizadores eram os estúdios estatais, alguns dos quais já existiam e foram desapropriados e incorporados pelo governo e outros foram construídos. Esses se organizavam a partir de “unidades” (modelo polonês). Essas unidades tinham uma relativa liberdade criativa e uma equipe relativamente fixa. Normalmente coordenados por diretores de renome, como Andrzej Wajda e Krzysztof Zanussi. Para fazer parte das instituições realizadoras o profissional tinha que ser filiado ao sindicato da sua categoria. Eles eram muito fortes na época e o único jeito de conseguir trabalho era filiando-se. Caso contrário, eram feitos boicotes por parte dos profissionais filiados até que a situação se resolvesse.

 O único meio de financiamento era através do Estado e não havia termos, regras ou editais para obtenção e distribuição desse dinheiro, ficando a cargo do governo o veto ou disponibilização das verbas.

 A distribuição era feita por monopólios nacionais, tendo um órgão responsável pela função em cada país do bloco. Os filmes eram distribuídos para as salas de exibição estatais – as salas anteriormente privadas ou foram desativadas ou estatizadas -, únicas existentes e também para as televisões nacionais. Outra forma de escoamento dos filmes era a troca entre países do bloco e países tidos como “simpatizantes”, ou seja, favoráveis ao modelo socialista, como por exemplo Índia, Vietnã e Cuba. Esse era o único espaço para produções internacionais circularem nas salas nacionais e único caminho para filmes produzidos no leste europeu chegarem a países fora do bloco. Garantindo assim uma expansão do alcance das obras, mesmo que mínimo. De forma alguma filmes do “ocidente” – ressalva para os países “simpatizantes” – entravam no circuito legal do Bloco Oriental.

 Os festivais da região tiveram um papel de distribuição secundário. Existentes desde a década de 50, eram realizados anualmente em todos os países do bloco. Exibiam, geralmente, toda a produção nacional do ano e os ganhadores eram definidos de acordo a posição política vigente.

 A indústria cinematográfica do leste europeu se organizou dessa forma até 1989. Com o fim do domínio da União Soviética na região houve uma reestruturação política e econômica de forma geral, não excluindo o cinema. Os estúdios foram privatizados aos poucos, o financiamento estatal agora passa a ser através de editais e não cobre toda a obra. As salas de exibição também foram privatizadas abrindo caminho para uma enxurrada de filmes antes proibidos, como os de Hollywood. A televisão assume papel importante de produtora de longas-metragens, além de financiamentos e co-produções internacionais.

 Os realizadores da época custaram a se adaptar. Acostumaram-se a não ter preocupações com lucros, uma vez que mesmo antes de pronto, o filme já estava pago devido ao financiamento estatal. Por isso, filmes comerciais não eram uma prática comum, os próprios filmes de gênero  não eram.

 Tentaram observar nichos e públicos específicos, mas sem sucesso. Os filmes nacionais perderam espaço nas salas do seus próprios países e o cinema do leste europeu foi marginalizado no circuito internacional, apesar de ser bem quisto em festivais. Talvez por esse outro sistema de produção, a realização se encaminhou por um viés diferente do resto do mundo. Hoje esse cinema tem um estética peculiar, em relação a outros cinemas nacionais e principalmente aos blockbusters hollywoodianos, onde prevalecem planos com câmera na mão e histórias mais humanas, no sentido de usarem menos artifícios. Lembrando uma estética de falso documentário.

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