A CIRCULAÇÃO GLOBAL E LOCAL DO NOVO CINEMA ARGENTINO (ATÉ MEADOS DOS ANOS 2000)

Por Lorena Arouche

A partir da década de 90 ocorreu uma retomada, um ressurgimento das produções cinematográficas da Argentina em termos de qualidade e quantidade. Boas produções, consideradas pela crítica, eram realizadas a baixo custo. Novas formas de financiamento externo (como as de co-produções) e campanhas locais de incentivo (Incaa e legislação de cotas) foram os principais motivos para que esse fato ocorresse, garantindo assim e favorecendo as produções das duas grandes tendências audiovisuais argentinas: os “autores industriais” e os cineastas independentes.

 Os chamados “autores industriais” constituem o lado mais comercial do cinema argentino. São realizadores mais maduros, admiradores de uma narrativa clássica e em sua maioria são crias de estúdios de cinema ou da publicidade.

 Já os cineastas independentes são a geração mais nova, de uma estética mais crua e advindos de escolas de cinema.

Apesar da tendência produtiva argentina surpreender por manter-se alta mesmo em épocas de crise, o cinema argentino enfrenta problemas com a ausência de público, promoção e distribuição, como acontece na maioria dos países da américa latina.

 A crise econômica

 A Argentina enfrentou uma grande crise econômica em 2001, quando o então presidente Fernando de la Rua congelou as poupanças domésticas para salvar os interesses bancários. Essa medida governamental gerou uma revolta da população que saiu às ruas munidas de panelas e frigideiras na noite que ficou conhecida por “panelaço”. O presidente fugiu e deixou o caos instalado. O cinema argentino, obviamente sofreu consequências, como uma medida econômica de emergência que autorizou o tesouro nacional a confiscar, ou desviar os fundos do Incaa (Instituto nacional de cinema e artes audiovisuais). Entretanto, surpreendentemente, as produções não sofreram tanto impacto como imaginado, pois os diretores conseguiram realizar suas produções com orçamento baixo. De forma que no ano seguinte, em 2002, a Argentina produziu 43 filmes, sendo 32 longas.

Iniciativas de exibição nacional

Além da iniciativa dos próprios realizadores de fazer filmes com poucos fundos, os exibidores tomaram medidas de redução do valor dos ingressos em até 50% (em alguns casos) como estratégia para atrair público. Se por um lado a estratégia reduzia as receitas com a bilheteria, por outro, medidas como essa foram fundamentais para manter a industria cultural do cinema na ativa, como uma das poucas áreas da cultura que não estagnaram após, e/ ou durante, a crise.

O Incaa, (http://www.incaa.gov.ar/castellano/index.php) por sua vez, desde a década de 90 se preocupa em investir em salas alternativas destinadas à exibição de produções locais. A Espacio Incaa Km 0- Cinema Gaumont, foi inaugurada em 2003. No final de 2003, o Incaa já abria mais de dez salas no país. No ano seguinte, em 2004, o Incaa tomou a iniciativa de ir para além das fronteiras locais, rumo à Europa, para garantir espaços de exibição de filmes locais fora da Argentina. A partir de então, salas públicas gratuitas foram abertas nos EUA, na França, Itália e Espanha; posteriormente em Tel Aviv, e Moscou. Recentemente, em Novembro de 2013, o Incaa abriu mais uma sala, restaurando um antigo cinema na província de Salta. Já é a segunda sala da região de Salta (região natal da diretora independente Lucrecia Martel). Esse programa federal que surgiu em 2004, já restaurou cerca de 47 salas em todo país, com mais de 130 filmes locais exibidos e vistos por mais de meio milhão de espectadores.

Iniciativas como essas enfrentam o fenômeno da ocupação das telas por parte dos filmes hollywoodianos que predominam as principais salas, constituindo aproximadamente 80% das exibições em salas comerciais.

Iniciativas de financiamento européias e ibero-americanas:

  • Hubert Bals fund Cinemart (Festival de Cinema de Roterdã)

 O Huvert Bals é uma plataforma de incentivo a países em desenvolvimento promovido pelo festival de cinema de Roterdã e pago pelo ministério de relações exteriores da Holanda.

As categorias de apoio são: roteiro e desenvolvimento de projeto, distribuição, pós-produção, produção digital e ainda workshops e capacitações.

São abertas duas seleções por ano – em março e em setembro – para apoio a projetos de longas-metragens da América Latina, Ásia e África, em diversos estágios de desenvolvimento. Na edição 2013, foram selecionados 14 projetos, que receberam, juntos um total de 161,7 mil euros.

Dos 14 selecionados, 2 projetos brasileiros de longa-metragem foram aprovados na última edição: “Mormaço”, de Marina Meliande, e “Pendular”, de Julia Murat. Ambos receberão bolsas para desenvolvimento de roteiro e projeto.

O festival foi criado em 1983 e o fundo em 1988. Em 2014, Hubert Bals comemora 25 anos de existência. Em sua história de 25 anos, mais de 900 projetos foram contemplados.

http://www.filmfestivalrotterdam.com/professionals/iffr-2014/25-years-of-hubert-bals-fund/

Os filmes financiados, anualmente integram a programação do festival.

  • Fonds Sud Cinema (França)

 Criado em 1984, financiado pelo Ministério da Cultura e da Comunicação (Centro Nacional \n da Cinematografia/CNC) e o Ministério dos Assuntos Estrangeiros,já participou em mais de 500 longas-metragens. O fundo, dá suporte a projetos de filmes de longa metragem nos seguintes gêneros: ficção, animação ou documentáros de criação destinados à exibição em salas comerciais na França e no exterior. Historicamente, muitos dos filmes contemplados pelo incentivo foram selecionados e/ou premiados em festivais internacionais.

As principais categorias da cadeia produtiva contempladas são produção, finalização e roteiro.

Os países beneficiados são: todos os da África, América Latina, Oriente Médio (à exceção de Israel, Turquia, a partir de 1992, Kuweit, Qatar, Bahrein, Oman, Arábia Saudita, Emirados Árabes), Ásia (à exceção de Coréia, Japão, Singapura, Taiwan) mais os países da Europa Central e Oriental: Albânia, Bósnia-Herzegovina, Croátia, Sérvia e Montenegro, Macedônia, Armênia, Geórgia, Azabairjão,Kazaquistão, Kirghiszistão, Ouzbeiquistão, Tadjikistão e Turkmenistão.

 http://www.cinefrance.com.br/informacoes/apoio/fonds.html

 O fundo francês tem um perfil de incentivo mais relacionado à temática cultural e possui maiores restrinções e requisições específicas que garantem sua contrapartida. Entre outras coisas, cito algumas relevantes: os projetos devem ser submetidos em língua francesa, os diretores e uma das produtoras do filme devem ser do local original do projeto, ou seja, um dos países acima citados, e no mínimo 75% das locações deverão ser desses países. Como contrapartida, a finalização do filme deverá ser feita na França, por técnicos franceses.

Do outro lado da Lei (El bonaerense, Pablo Trapero, 2002)

Sinopse: Numa cidadezinha remota na área rural da Argentina, Zapa, um chaveiro de 30 anos, leva uma vida calma e monótona, até que um “serviço” para seu patrão sai errado. Tendo que cumprir pena na prisão, ele é forçado a trocar o lugar onde nasceu pelas violentas favelas de Buenos Aires. Zapa não tem escolha senão entrar para a “Bonaerense”, a perversa polícia de Buenos Aires.

O filme possui os seguintes apoios/ financiamentos: Ibermedia, Fond sud Cinema, Incaa e Hubert Bals.

 americalatina2

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s