SOY CUBA E A HISTÓRIA DA INDÚSTRIA CINEMATOGRÁFICA CUBANA

Por Diogo Condé

O desenvolvimento da indústria cinematográfica cubana se estabeleceu de forma bem diferente das outras cinematografias dos países latinos, o embrião de uma prática de cinema se deu no começo do século XX, com o apoio do General Mario García Menocal depois de uma vasta expansão de exibidores de filmes em havana, estimulados pelo jovem realizador francês Gabriel Veyre, ao trazer alguns curtas-metragens feitos no méxico para Havana e posteriormente filmando algumas obras na ilha.

Dessa época até a revolução cubana em 1959 foram realizados cerca de oitenta filmes, sendo sua maioria melodramas e releituras históricas. Chegada a revolução, Cuba entrou para o movimento do novo cinema latino americano, junto com argentina e Brasil, e a partir daí, passou pela sua “era de ouro”. Impulsionada pelo grande apoio do governo revolucionário, inspirado no cinema de propaganda da aliada união soviética ao criar o departamento cinematográfico na divisão de cultura do exército rebelde, futuro ICAC (Instituto Cubano Del Arte y La Indústria Cinematográficos) a indústria cinematográfica cresceu exponencialmente tanto na dimensão industrial quanto na artística.

Fundado o ICAC, Cuba passou a fomentar a construção de cinemas populares pelo país, a formação do imenso acervo da cinemateca cubana e financiou filmes de cineastas naturais da ilha, começando por “Historias de la revolución” de Tomás Gutiérrez Alea, e “La vivenda” de Julio García Espinosa os dois com temáticas revolucionárias. Os filmes eram bem distribuídos pelo ICAC, que chegava a levar projetores para pequenas cidades também terem acesso às produções, o povo participou bastante desse processo, frequentando assiduamente às salas de exibição com entusiasmo.

O governo considerava o cinema como a forma artística mais poderosa e provocativa que suscitava a educação e à criação de novas ideias e auxiliou a busca da identidade nacional através do cinema. As leis de incentivo à cultura de Cuba deram à população uma boa relação com o cinema até hoje, e fizeram a escola de cinema e tv de cuba ser uma das mais conceituadas do mundo.

Algo interessante nessa indústria também é o grande número de coproduções, com o objetivo de globalizar os ideiais cubanos. Dentre tantas produções, junto ao México, Argentina, Chile, Espanha e outros países latinos, o mais curioso caso é o da produção de “Soy Cuba” feito junto à antiga união soviética. Essa superprodução, bancada pelos dois governos, durou um ano para ser filmada, e é um grande exemplo de como o cinema foi difundido de forma inteligente no país.

O filme era para ser uma peça de propaganda do comunismo, feito para mostrar a identidade de cuba para o resto do mundo, já que pouco se conhecia do país tão resistente à globalização. Foi-se decidido fazer um filme que poetizasse o momento romântico que o país passava na fase pós-revolucionária, onde os cubanos se viram transformando o futuro do país numa grande epopeia. Em 61 um grupo soviético do comitê de veio fechar um projeto de colaboração com Cuba para estreitar as relações entre os dois países e já fazerem uma pesquisa prévia sobre a cultura no país e indicaram o diretor Mikhail Kalatozov para desenvolver o projeto. Um grande grupo de artistas cubanos e soviéticos foi reunido para dar continuidade a tudo isso.

Foi dado a Kalatozov bastante liberdade para criar e muito dinheiro. Cameras especiais foram disponibilizadas para se fazer planos aquáticos e aéreos e até o exército disponibilizou grande parte de seus soldados para serem usados no filme.

No entanto, Soy Cuba acabou sendo um fiasco, decepcionou os dois governos envolvidos na produção e não foi tão divulgado quanto se esperava. O que ocorreu foi a falta de identificação que o filme conseguiu criar com o público cubano, que o achou muito poético, mas pouco condizente com a paixão nacional pela revolução. É bastante raro uma nação rejeitar assim um filme dessa maneira, ainda mais um filme tão visualmente belo e rebuscado tecnicamente, isso demonstra um grande engajamento da população em se ver representada.

Cuba sofreu bastante com a queda da união soviética, grande parceira no cinema, desses anos para cá conseguiu fazer muito menos filmes do que antes, ocorreu um grande êxodo de cineastas para outros países e produzindo muitos filmes para plateias estrangeiras. Cuba então passou a ter os mesmos problemas das cinematografias latinas, como falta de espaço comercial, condições ruins de produção

Ainda hoje o ICAC funciona de forma relativamente prolífica, preservando a cultura do país no cinema e em outras artes, divulgando os valores nacionais pelo mundo e criando oportunidades para jovens cineastas, porém, como cuba ainda é um país muito fechado, acaba-se privando o país do verdadeiro valor que deveria ter ante à cinematografia mundial, sendo muito pouco reconhecido nos festivais pela falta de distribuição dos filmes pelo mundo. As políticas quanto a cultura mudaram desde a chegada de Raul Castro ao poder, que diminuiu bastante a participação do governo no mercado cinematográfico e dá menos importância à cinematografia cubana.

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