PRODUÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE VÍDEOS NA NIGÉRIA

possível alternativa para todo o continente africano?

Por Lucas Nascimento

As imagens que temos do continente africano e que constituem nosso imaginário são, de certa forma, estereotipadas. No cinema, os filmes acessíveis sobre a África são, em sua maioria, feitos por não nativos e, por sua vez, reforçam essa imagem, nos apresentando um lugar selvagem, atrasado em relação ao resto do mundo e, apesar de existirem aspectos comuns nas produções cinematográficas, não apontam diferenças entre um país e outro ou mesmo entre regiões.

Com as independências das colônias em meados da década de 1960, se passou a vislumbrar um cinema puramente africano (pelo menos, feito por eles). Também, alguns cineastas europeus e até americanos passaram a se preocupar mais em dar voz aos povos desse continente (“Eu, um Negro” (1955), de Jean Rouch) e a realizarem filmes que são considerados anticolonialistas como “As Estátuas Também Morrem” (1955), de Alain Resnais e Chris Marker e “O Leão Tem Sete Cabeças” (1970), de Glauber Rocha(1).

Os primeiros filmes realizados por africanos abordavam assuntos pertinentes a sua realidade; as suas diferenças em relação à metrópole, e assuntos como racismo e dificuldades de trabalho em solo europeu foram temas que começaram a surgir após as independências dos Estados africanos – temática comum até hoje em diferentes localidades do continente.

É importante destacar que o Egito e, principalmente, África do Sul (essa última graças à infraestrutura deixada pelo período do apartheid e por questões econômicas e sociais), apresentavam/apresentam estruturas para produção fílmica significativas e já abordavam/abordam temas mais genéricos; muitos dos filmes também eram/são realizados com co-produções de países europeus. Esses dois países contam com filmes que datam mais de um século e hoje apresentam um mercado um tanto consolidado com o resto do mundo se comparado com um continente ainda em fase embrionária.

Ao falar de produção fílmica em solo africano, algumas questões ainda são bastante pertinentes. Uma das principais diz respeito à dependência de antigas colônias à França, por exemplo, para financiamento de suas realizações cinematográficas. Por um lado, esse apoio serve para incentivar a criação de filmes em lugares onde não há compromissos governamentais locais sobre os produtos culturais. Por outro lado, teóricos terceiro-mundistas dizem que esse modelo de financiamento serve como uma barreira para o “surgimento de um cinema genuinamente africano”(2), principalmente no que concerne a realizações que são feitas para atender a um interesse puramente ocidentalizado.

Diante desse cenário de pouco ou quase nenhum apoio governamental local nos países africanos e contra uma política de ajuda proveniente da França e da União Europeia que direcionam as produções a atender a uma expectativa externa, a produção e distribuição informal de vídeo da Nigéria (e Gana) pode ser uma alternativa para uma “descolonização” também da mente e o surgimento de imagens que se voltam para uma realidade e interesse local.

A produção de vídeos na Nigéria atende, especificamente, a um público doméstico. Câmeras precárias e até mesmo filmes realizados com imagens captadas por aparelhos de celular, fizeram desse país umas das maiores indústrias cinematográficas do mundo; pelo menos, não na circulação de capital, mas de quantidade de filmes (segundo algumas fontes, o dobro do que é feito na Índia e quatro vezes mais que em Hollywood). Numa comparação de orçamento, os filmes nigerianos têm um custo médio de US$20 mil, que seria 34 segundos do brasileiro “Cilada” (com orçamento de US$3,3 milhões) ou 0,9 segundos de “Capitão América” (US$140 milhões)(3).

O mercado de Nollywood (nome que surge em 2002 em comparação a Hollywood e Bollywood, na índia – juntos formam os três maiores nomes de produção cinematográfica no mundo) ganha destaques em 2004, quando a revista Cahiers du Cinéma, em uma das suas publicações, afirmou que a Nigéria, naquele ano, tinha produzido mais de 1.200 filmes, batendo qualquer outro mercado em quantidade de produção e com uma indústria autossustentável e que hoje representa a terceira economia do país, atrás do petróleo e da agricultura (4).

A Nigéria é o país mais populoso da África e conta com mais de 170 milhões de habitantes (cada pessoa vive em média com menos de RS$ 2,00 dólares por dia). Algumas localidades mal contam com o fornecimento de energia elétrica que acaba contribuindo com o grande índice de violência, como em Lagos, cidade com mais de 15 milhões de habitantes. Nesse caso, o mercado de vídeo atende a um interesse local por entretenimento (visto a quase inexistência das salas de cinema – as únicas que ainda resistem se dedicam, exclusivamente, na exibição de blockbusters hollywoodianos) e, de certa forma, por segurança, além de apresentarem filmes que abordem questões de interesse local (5).

Além das questões apontadas anteriormente, a produção de vídeo na Nigéria apresenta outra característica que evidencia sua função social para o continente: o mercado emprega de forma direta e indiretamente 200 mil pessoas e faz circular 250 milhões de dólares por ano (6). Alguns filmes são lançados em inglês (nigeriano, ou igbo) e muitos outros são feitos em ioruba e alguns dialetos local, uma forma de atender a uma população na maioria analfabeta. Esses vídeos são lançados diretamente em DVD.

Os vídeos lançados em DVD são vendidos na rua por camelôs e algumas ‘lojinhas’ voltadas para o comércio de filmes. Mesmo parecendo ser um mercado totalmente desorganizado, existe uma tentativa de controle sobre as cópias que são distribuídas, na maioria das vezes, pelos próprios realizados (embora já existam empresas voltadas para a distribuição desses filmes). As cópias são assinadas manualmente e, após serem levadas ao mercado, são fiscalizadas (também) até pelos próprios diretores que contam com a ajuda da polícia para enfrentar as pessoas que fazem ‘pirataria’. Mesmo com todo esse esforço, a maioria das copias são vendidas ilegalmente (6).

O mercado de vídeo surge a partir da crise econômica na década de 1980, que prejudicou, entre outras coisas, em alguma tentativa de criação de uma indústria audiovisual no país. Os primeiros filmes dessa nova estratégia de mercado surgem a partir de pequenas produtoras de vídeos de cerimônias e eventos sociais e já atendiam a uma população que possuíam aparelhos de VHS em casa (7). “Livins in Bondage” (2002), de Chris Obi Rapu (numa tradução seria algo como ‘vivendo com um encosto’) foi o primeiro sucesso entre os vídeos e trazia como tema questões voltadas para a religiosidade e crenças (4).

Inspirados nos melodramas e musicais indianos e novelas latinas, os filmes nigerianos, além de questões ligadas a religião, tratam de outras questões culturais e também sociais, como a AIDs, por exemplo (5). Mas algumas questões, como a homossexualidade ainda é tabu, visto leis rigorosas contra os gays no país.

Como percebido, a produção e distribuição de vídeo na Nigéria é original e representativa, visto a variedade de filmes lançadas por ano. Mesmo com a precariedade de boa parte das cópias, as narrativas são atrativas a população, não apenas local, mas também a outros países vizinhos e até para a população de imigrantes na Europa – o filme “Tango With Me”, do diretor Mahomood Ali-Balogun (longa mais lucrativo do país em 2011), fora exibido em cinemas de Londres; alguns cineastas, como Tunde Kelani tem formação acadêmica Europeia, aproximando, assim, a estética do ocidente (4) –, apresentam uma forma de produção que atendam a uma necessidade de imagens e temas próximos a questões social e apresenta um modelo de comercialização que atendem e possível de ser absorvida pela população.

REFERÊNCIAS

1. DAMASCENO, Janaína. Revertendo imagens estereotipadas. ComCiência: revista eletrônica de jornalismo científico. Ed. 34 – em http://www.comciencia.br

2. BAMBA, Mahomed. Cinema mundial: indústria, política e mercado: África / Org. Alessandra Medeiro – São Paulo: Escrituras Editora, 2007 (coleção cinema no mundo, vol. 1). Pág. 20.

3. Revista Super Interessante (edição 296) de outubro de 2011.

4. Revista Trip (edição 173) de dezembro de 2008.

5. LUZ, Natália da. Por dentro da África (publicada em 18 março de 2013). – em http://www.pordentrodaafrica.com

6. Nollywood: o cinema da África que criou a sua própria identidade (publicada em 29 de setembro de 2013). – em cinemanigeriano.blogspot.com.br

7. BALOGUM, Françoise. Cinema mundial: indústria, política e mercado: África / Org. Alessandra Medeiros – São Paulo: Escrituras Editora, 2007 (coleção cinema no mundo vol. 1). Pág. 195.

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