O MERCOSUL E O MERCADO DE CINEMA (MFM)

Por Marcelo Agra

Com o objetivo de constituir um mercado comum, Brasil e Argentina buscaram parcerias com outros países para a formação de um bloco econômico que viesse fortalecer seus mercados e, ao mesmo tempo, consolidar os recentes governos civis depois de décadas comandados por ditaduras militares. Em março de 1991 Paraguai e Uruguai aceitaram o convite e assinaram o acordo, formando assim o Mercado Comúm del Sur, mais conhecido como Mercosul. O sucesso desse bloco foi comprovado logo nos anos seguintes com os êxitos comerciais alcançados, batendo recorde nas exportações (US$ 2.134 milhões) em 2006, segundo dados do Servicio Nacional de Sanidad y Calidad Agroalimentária (Senasa).

O Mercosul difere-se de outros acordos econômicos pela proposição de consolidar-se como bloco para além dos interesses comercias. Configura-se na ideia de ter uma comunidade de consenso a partir da qual se tomem decisões para consolidar a integração cultural dos países, mas, sem haver homogeneização. Nesse sentido, os países integrantes, decidiram estabelecer, em 1996, o Mercosul Cultural. As inciativas mais notáveis desse projeto foram: Selo Mercosul Cultural, que permite o livre acesso de certos objetos de cunho cultural na zona do Mercosul, o que, na prática, significa que produtos com esse selo conseguem chegar mais rapidamente aos seus destinos pois não são fiscalizados pelas alfandegas economizando também custos; a organização da Bienal  de Artes Visuales del Mercosul; a organização do Festival de Cine del Mercosul; o Observatório Mercosur Audiovisual (OMA) e o lançamento do Mercado del Film del Mercosul (MFM), organismo criado em março de 2005 com o objetivo de apoiar a indústria audiovisual latino-americana, sobretudo, no que diz respeito a comercialização de obras cinematográficas.

O MFM surgiu após a realização de um exaustivo estudo da indústria cultural da Argentina, realizado pelo então diretor do Festival de Cinema de Mar del Plata, o cineasta Miguel Pereira, junto com o Marcelo Elizondo, diretor da Fundación Export Ar, que resultou num relatório detalhado sobre as fortalezas e deficiências do cinema argentino e com o crescente interesse por grandes distribuidoras que atuassem na região, somado a crise, assinalada por alguns, do Festival del Nuevo Cine Latino-americano, de Havana, tido como centro do cinema no subcontinente, criou-se o ambiente propício para a construção de um espaço voltado para à comercialização de cinema da região do Mercosul.

Inserido no 20º Festival de Cinema de Mar del Plata, a primeira edição do MFM teve, fundamentalmente uma estrutura de mercado. Foram montadas mesas de negócio com exibição de filmes para companhias asiáticas e europeias interessadas na exportação de obras locais.

O MFM foi concebido como espaço de encontro para a concretização de acordos entre Mercosul, A América Latina, a União Europeia e os Mercados Asiáticos. Nele se oferecem projetos para gerar um intercâmbio para o desenvolvimento e a produção com outros mercados e abrir espaços na promoção, distribuição e exibição de filmes em salas de cinema, televisão aberta, por assinatura e em formatos digitais (Site do Festival de Cinema do Mar del Plata, seção negócios).

Os benefícios:

  • O MFM é organizado pelo festival de Cinema de Mar del Plata e pelo Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales de Argentina (Incaa)
  • O MFM considera como prioridade a comercialização das produções cinematográficas produzidas por ou com a participação latino-americana.
  • Os possíveis acordos de distribuição e exibição com os países asiáticos, como China e Índia (os mais populosos do mundo), geraria uma abertura de mercado que é necessária para recuperar custos das produções latino-americanas.
  • O MFM faz parte de um dos modelos mais bem sucedidos e consolidados de integração supranacional da região, como é o Mercosul.
  • Nasce como inciativa dos países latino-americanos que integram o Mercosul e até agora é controlado por eles. Tem sede na Argentina e não fora do subcontinente.
  • Os países no Mercosul ativam acordos com emissoras latino americanas para promover filmes latino americanos, com intenção de fortalecer a integração do bloco.

Obs.: Existe, atualmente, um convênio de distribuição, promovido pelo Mercosul, entre Cuba e Brasil. Os dois países intercambiam cinco filmes para exploração comercial. Existe, igualmente, um convenio entre o Brasil e a Argentina (Canal Brasil e Incaa), no qual 37 filmes argentinos são transmitidos em horário nobre no Brasil.

Visando a integração entre cinema e televisão, foram abertas no Brasil duas novas emissoras a Tal TV (Televisão América Latina), com sede no Brasil, via satélite. A outra emissora latino-americana é a Telesur. É um canal via satélite formado por Venezuela, Brasil, Argentina e Uruguai. As duas emissoras se tornaram mais um espaço para a distribuição e exibição na região.

Os problemas:

  • É dependente econômica e politicamente do Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales de Argentina (Incaa). Se o MFM representa o mercado da indústria cinematográfica do Mercosul, poderia consolidar-se dentro das políticas do bloco.
  • Não conta com espaço físico disponível permanentemente para rodadas de negociações. Já que estas funcionam somente durante o Festival de Cinema de Mar del Plata. O MFM poderia conceber-se como um espaço ativo durante os diversos festivais de cinema da região do Mercosul.
  • A histórica fragilidade das tentativas latino-americanas de integração, nesse caso audiovisual, e que persistam os modelos individualistas.
  • Não consegue harmonizar assimetrias entre diferentes indústrias cinematográficas latino-americanas e ou extracontinentais.
  • Não estimula suficientemente o mercado que procura alcançar. Um mercado deve estar cheio de estímulos e facilidades, caso contrário não vende. Este estímulo deve considerar que grande parte da população da região é pobre.

O MFM pode oferecer saídas substanciais ao problema de distribuição e exibição do cinema no continente. O apoio dos governos latino-americanos é fundamental para consolidar essa iniciativa exportadora e evitar que se converta em uma célula cultural isolada dentro do empreendimento de integração que a América Latina se propôs.

REFERÊNCIA

MELEIRO, Alessandra (org.). Cinema no mundo: indústria, política e mercado – América Latina, volume II. São Paulo: Escrituras, 2012. 1ª reimpressão.

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