A ÁFRICA NOLLYWOODIANA: O CINEMA NA NIGÉRIA

Por Luiz Carlos Ferreira.

O cinema africano encontra na Nigéria um ambiente de produções audiovisuais que coloca aquele país em destaque quando se fala quantidade de realizações.  Em que pese os sérios problemas de ordem social que se abate sobre aquela região, bem como, em razão desse cenário, dispor de  pouquíssimas salas de exibição e equipamentos,  encontramos na Nigéria uma cadeia de produção cinematográfica bastante  constante e intensa.

Uma das peculiaridades a ser observada quando se fala em cinema nigeriano é o fato de que grande parte do que se produz em termos audiovisuais é de natureza doméstica, com produções simples e caseiras. Bons  equipamentos são escassos,  o que exige dos realizadores um tremendo esforço em termos de criatividade e destreza.

Apesar desse contexto pouco favorável, a Nigéria situa-se como a nação onde se mais produz em termos de cinema, numa cadeia que se assemelha a uma verdadeira linha de montagem, num ritmo frenético e com uma demanda bastante considerável. Para ter uma ideia, são produzidos mais de 2.500 filmes por ano, o que equivale ao dobro do que se produz na Índia e ao quádruplo do que se leva a efeito em Hollywood.

No início da década de 70, o governo da Nigéria decidiu, por decreto, assumir o controle de mais de 300 salas de cinema que existiam na ocasião (atualmente não chegam a 20 salas). Entretanto, a instabilidade política, a fragilidade econômica e a insegurança, dentre outros fatores, fizeram com que a população deixassem de frequentar as salas de cinema. Neste ambiente, ver filmes na própria casa tornou-se uma hábito cultural bastante cultivado até os dias de hoje.

Quando se pensa em custos, as produções nigerianas ficam bem distantes das de outros países. Assim, por exemplo, enquanto um filme nigeriano custa, em média, US$ 20 mil, uma produção brasileira padrão-globo não sai por menos de US$ 1,5 milhões.

É importante enfatizar mais uma vez que o mercado de produção de filmes na Nigéria encontra-se voltado quase que exclusivamente para o homevídeo, uma que, como já mencionado, quase que não existem salas de cinema naquele país. Esse ambiente de carência de espaços de exibição fez surgir na Nigéria uma quantidade incalculável de videoclubes e locadoras. As estatísticas não são muito confiáveis, mas há uma estimativa  da existência de mais de quinze mil videoclubes.

Outro dado importante é a estimativa de que cada filme venda perto de 25 mil cópias, com cada unidade vendida por aproximadamente US$ 3,50. O que ocorre é que há uma verdadeira e declarada guerra no sentido de aproximar os preços dos filmes o mais próximo possível daqueles praticados pela pirataria, cuja extensão e funcionalidade é bastante ampla, sem qualquer tipo de repressão por parte das autoridades locais.

No quesito financiamento, o mercado audiovisual nigeriano é quase que totalmente independente do Estado, onde os aportes financeiros são, sem sua grande maioria, levados a efeito a partir de empréstimos pessoais e informais que são regulados por si próprios.  E não poderia ser diferente, considerando que num país populoso  como a Nigéria ( o oitavo do mundo), com a maior parte da população numa linha de pobreza extrema, outras demandas sejam bem mais importantes e prioritárias.

Os primeiros filmes realizados na Nigéria eram todos produzidos a partir de vídeo analógico (VHS ou Betacam). Porém, com o avanço tecnológico e barateamento dos equipamentos, tem-se hoje uma produção a nível digital, principalmente no formato Mini-DV.

Em termos de distribuição, constata-se que na grande maioria dos casos a distribuição dos filmes (fitas e DVDs) é conduzida e coordenada pelos próprios realizadores, o que lhe proporcionam, além de um melhor controle comercial,  certa margem de lucro que lhe servirá de base de financiamento para outras realizações.

Num período de menos de 15 anos, houve um incremento financeiro no cinema nigeriano na ordem de 250 milhões de dólares ao ano, gerando um mercado de emprego (direto e indireto) que atende a milhares de pessoas, nos mais diversos e variados segmentos que se relacionem com o universo audiovisual.

Um fator que contribui bastante para disseminação interna do cinema nigeriano é o fato de seus realizadores se voltarem para temáticas que possuem um apelo direto com o público local. Eles se valem de assuntos do cotidiano e que impactam diariamente a vida da população, gerando, assim, uma empatia imediata. Assuntos como AIDS, prostituição, religião e ocultismo integram as tramas dos filmes lá produzidos, provocando no espectador inevitáveis identificações e afetos com as tramas desenvolvidas.  São filmes que têm ainda a capacidade de expressar o imaginário e a magia africana.

Outra questão a se destacar diz respeito aos idiomas que são utilizados nas produções cinematográficas nigerianas. É que por se tratar de um imenso país, com  várias etnias,  a escolha da língua  por parte dos realizadores consiste num verdadeiro desafio. Assim como ocorre na Índia (Bollywood), os filmes nigerianos são produzidos em diversas línguas. Assim,  cerca de 40% da produção de filmes é feita em pidgin english, 35% em iorubae,  17,5% em hausa e os 7,5% restantes em outros idiomas locais.  Apesar da presença de legendas, a maioria dos telespectadores está disposta a assistir aos filmes produzidos nas suas línguas de origem. Na verdade, não é apenas a relação afetiva com a língua materna que é considerada, mas os elementos mitológicos e comportamentais que são trabalhados nessas produções e que guardam uma profunda relação com os nigerianos.

O que se ver hoje no Cinema produzido na Nigéria é um ambiente de bastante carência. No entanto, a produção audiovisual naquele País vem evoluindo, criando, inclusive, uma sólida base econômica que permite o aprimoramento das produções, com uso de novos e melhores equipamentos. Surgem profissionais talentosos em todos os níveis da cadeia produtiva o que repercute no aparecimento de linguagens mais instigantes e competitivas, em termos de festivais de cinema.

Enfim, ao nos depararmos com um país com cerca de 120 milhões de habitantes, formado por grupos das mais variadas etnias, com gravíssimos problemas de ordem social e econômica, encontramos um modelo de produção de audiovisual que, se não podemos ou queremos copiar, ao menos  nos levar a refletir sobre a nossa  dependência estatal, via incentivos fiscais. Faz-nos pensar que o nosso velho “cinema de guerrilha” é ainda uma alternativa considerável.

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