O PAPEL DA MULHER – FICTÍCIO E REAL – NO CINEMA AFRICANO

Por Jéssica Fantini

La noire de...Ao analisar o cinema mundial percebe-se que um dos mais diversificados, seja na temática ou nas questões estilísticas, é o cinema feito na África. Apesar disso, nos primeiros anos de vida do cinema africano, as realizações se moldavam as opiniões e anseios daqueles que estavam no controle da sociedade. Diante do imperialismo europeu, e todo o sofrimento causado pelo abuso e a submissão forçada pelos estrangeiros, não existia liberdade para compreender o que era ser africano, formar a consciência nacional, e dessa forma, a existência da expressão cinematográfica genuína não surgiu nesse período. A partir do momento que os africanos conquistaram sua independência política e pelo menos teoricamente, se livraram das amarras dos países europeus, surgiu o desejo de construir a própria identidade. As primeiras produções, como o filme Soleil Ó (1970) de Med Hondo, exaltavam as belezas da África, mas também criticavam a colonização feita pelos europeus. Dessa forma, os filmes foram surgindo aos poucos, em certos lugares mais discretos, em outros mais expressivos, e assim, o cinema africano começou a escrever sua história.

den musoA riqueza temática é um dos fatores mais estimulantes ao pesquisar sobre o desenvolvimento do cinema africano. De fato as produções e consequentemente os conteúdos fílmicos, seguem muitas vezes as tendências eurocêntricos, afinal, para conseguir visibilidade (principalmente nos festivais) os realizadores optam por agradar o público alvo, que é o europeu. No entanto, apesar da dependência do mercado internacional, a gama de produções gerais, até mesmo por conta das disparidades culturais, sociais e econômicas existentes no continente, se destacam pela total pluralidade. As obras variam de realistas e sociopolíticas como as de Ousmane Sembène, até as mais primitivas e fantasiosas como as de Souleymane Cissé e Idrissa Quedraogo. Além da impressionante variação temática, existe outro fator que chama atenção nas narrativas africanas: Em uma grande parcela dos filmes, independente da abordagem escolhida, a mulher acaba sendo o foco da história. De 315 filmes registrados na África subsaariana, cerca de 127 deles, isto é, aproximadamente 40%, tem como tópico o universo feminino, seja como tema central ou como fio condutor narrativo.

Em 1895, antes mesmo da exibição do cinematógrafo pelos irmãos Lumière, Félix-Louis Regnault, captou imagens de uma mulher africana (do grupo étnico wolof) por meio da cronofotografia, processo baseado na análise do movimento temporal através da sequência de imagens fixas. Ou seja, quando o cinema ainda ensaiava nascer, a imagem da mulher africana já chamava atenção, mesmo que inicialmente só pelo impacto causado pelo exotismo. A ideia da imagem associada a um show de atrações, pelos traços singulares dos afrodescendentes, foi posteriormente criticada em alguns filmes, como o recente Venus Noire, do tunisiano Abedellatif Kechiche (Azul é a cor mais quente).

Safi Faye2martine

Diretores como Med Hondo, Souleymane Cissé, Henri Duparc, Djibril Diop Mambety e Ousmane Sembené se destacam, além de tudo, por explorar com êxito o universo feminino na África. Nesse âmbito da ficção, no recorte da realidade, as mulheres são representadas na maioria das vezes, como vítimas de uma sociedade de visão patriarcal e tradicional. Além disso, também é explorado em conjunto, o típico conflito entre modernidade e tradição, base central de todo o cinema africano e que, vale salientar, representa 10% do total de 127 filmes de temática feminina. Inseridos nessa percentagem, estão filmes em que as mulheres conhecem os costumes do ocidente e temem pela perda das origens africanas, além do conflito com as questões das tradições através na luta para se livrar dos rituais do grupo tribal, etc. Fora da percentagem, mas também muito frequente, são os assuntos relacionados aos problemas matrimoniais (a maioria devido ao casamento forçado) e a dificuldade de lidar com as co-esposas, principalmente as ocidentalizadas.

Leila KilaniA diversidade na criação das figuras femininas é tão grande, que o ponto de encontro entre elas, acaba sendo a intensidade das personagens e a capacidade de prender o espectador. O destaque feminino independe do estilo da trama. Seja ao explorar a mulher e a situação na sociedade, como em La noire de… (1966) e toda a questão do abuso e do preconceito racial enraizado pelo imperialismo; Ao expor o tratamento dado às mulheres no nicho familiar, como em Den muso (1975), Ou até mesmo ao retratar os aspectos da cultura africana e a mulher nesse contexto, como em Moolaadé (2004), que mostra a tradicional mutilação genital feminina na tribo africana (um dos dois únicos filmes que tratam o assunto). Além dos contextos narrativos em que as mulheres são temáticas centrais, a própria figura da africana surge em estereótipos: A avó feiticeira em Yaaba (1987) de Idrissa Ouedraogo; Diouana, a moça moderna e corajosa de La Noire de… em busca de emprego fora da África, a esposa adúltera em Visages de femmes (1985) de Désiré Écaré, entre tantos outros.

Outro ponto observado sobre as questões comportamentais das mulheres africanas na representação cinematográfica é que pouquíssimas vezes elas são representadas com sensualidade, como uma Rita Hayworth, Ava Gardner ou qualquer outra femme fatale do cinema ocidental. O caráter sexual está presente, porém de forma natural, discreta e cheia de pudor. A futilidade está longe de ser o estimulo das personagens, que são movidas por sentimentalismo e lutam por causas maiores. Quem poderia ser tão dedicada e resignada assim? Uma mãe. A imagem da ficção consegue ser de fato, o reflexo da visão social e do campo de batalha vivido pelas mulheres africanas, principalmente aquelas que buscam ser algo além de mães dedicadas, como é o caso das cineastas.

moolaade2Na grande maioria das produções subsaarianas, a mulher funciona como um instrumento de conexão com a origem dos costumes, a verdadeira mãe dos valores africanos. O fato de ser um símbolo da identidade nacional, limita de certa forma, a imagem das mulheres, tanto nas personagens criadas pelos diretores, quanto por trás das câmeras, na difícil aceitação da sociedade às cineastas africanas.

Dos cerca de 450 realizadores subsaarianos (documentaristas e autores de ficção) só há 20 mulheres, ou seja, cerca de 4%. Apesar da percentagem pouco expressiva, a qualidade dos filmes realizados por mulheres e a incidência deles nos festivais, confirma que o olhar feminino só tem a enriquecer, e muito, o cinema africano. O grande incentivo começou em Burkina Faso, um dos maiores destaques em produção audiovisual da África. Em 1991, durante a 12ª edição da FESPACO (Festival Panafricano de Cinemas e Televisão de Ouagadougou) aconteceu um workshop, no intuito de discutir as dificuldades encontradas pelas mulheres em todas as esferas do audiovisual, seja nas barreiras para se formar profissionalmente na área, como nos problemas específicos de produção e financiamento (dilema para os africanos em geral, ainda pior na posição feminina) dos filmes.

Logo em seguida surgiram filmes como Les Silences du Palais da tunisiana Moufida Tlatli que ganhou menção especial Câmera de Ouro, no Cannes e também prêmio da crítica em Toronto, em 1994. Ainda assim, até mesmo antes da conferência, em 1980, Safi Faye, que é considerada uma das maiores realizadoras africanas e tem o talento comparado a Ousmane Sembène, o pai do cinema africano, ganhou o prêmio de Tanit de bronze por Fad’jal. Apesar das conquistas, ainda era atípico uma mulher ganhar premiações.

valerie kaboreAs africanas provaram que as lutas por causas maiores nas telas do cinema, também acontecem na realidade. Do período citado até a 21ª edição da FESPACO, em 2009, o avanço do cinema feito por mulheres foi brutal. Leila Kilani (Nossos Lugares Proibidos) foi vencedora do prêmio de melhor longa-metragem documental, além de dividir com Jihan el Tahri (Atrás do Arco-Íris) e Osvalde Lewat (Um assunto de Pretos) o prêmio Ouaga de longa-metragem documental. Outro destaque foi a senegalesa Katy Léna Ndiaye por En attendant les Hommes.

Em 2010, a direção geral da FESPACO, provavelmente pelo destaque na edição anterior, renovou as intenções do encontro promovido em 1991 e criou a JCFA, Journées Cinématographiques de la Femme Africaine de I’Image (Jornada Cinematográfica da Mulher Africana da Imagem). No festival, além das exibições de filmes, são feitas palestras relacionadas ao assunto e o mais importante: Funciona como ponto de encontro para as mulheres do ramo audiovisual (diretoras, montadoras, roteiristas, produtoras e atrizes de cinema e televisão). O festival, programado para acontecer nos anos pares e não chocar com a FESPACO, tem como centro a cidade de Ouagadougou, capital do Burkina, mas será apresentado, nas duas primeiras edições, em cidades próximas, para presentear durante as festividades do dia da mulher.

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No IV Festival do Filme Documentário (Dockanema), houve um debate em que a realizadora moçambicana, Isabel de Noronha, comentou sobre o preconceito enfrentado pelas mulheres no cinema. Ela declarou que as pessoas elogiam seu trabalho, mas logo em seguida perguntam como estão os seus filhos e quais os danos que ela causou a família. Outra cineasta que também se pronunciou foi Jihan El Tahri, do Egipto, e expôs sua experiência pessoal de ter levado a filha, na época com 12 anos, para o set de filmagem, porque foi obrigada a leva-la para a viagem de gravação. Relatos como esses, só reforçam a noção de que muitos ainda enxergam as mulheres africanas como mães tradicionais, e nada mais que isso. Pasme que diante de tanto preconceito arraigado e por consequência, muita dificuldade de patrocínio na produção e distribuição dos filmes, mulheres como Safi Faye , Moufida Tlatli , Leila Kilani, Jihan el Tahri, Osvalde Lewat, Selma Baccar, Nadia El Fan, Martine Condé Ilboudo, Valerie Kaboré, Rahmatou Keïta, Wanjiru Kinyanjui, Rachida Krim, Flora M’mbugu-Schelling, Franceline Oubda e mais tantas outras realizadoras (um artigo é pouco para citá-las) continuam na luta para produzir seus filmes e mais ainda, na luta pela liberdade da mulher africana.

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