O CINEMA DA CORÉIA DO SUL

Por Barbara Carvalho

A Coreia do Sul foi um país esquecido, comparado e confundido pela Coreia do Norte. Essa confusão fez com que o ocidente não mantivesse os olhos para a produção nacional, veremos que, passaram-se anos até que algum filme, cineasta ou crítico fossem vistos e aclamados pelo publico de festivais mundo à fora. Só a partir de 1990 que cineastas como Kim Ki Duk, Park Chan-Wook Hong Sang-soo, Lee Chang-dong, Bong Joon-ho ou o crítico Chung Sung-ill tiveram seus nomes ligados à qualidade e sensibilidade que os filmes coreanos são hoje em dia.

O cinema de Coreia nasceu em 1919, ano que foi produzido seu primeiro filme, “A Detective’s Great Pain” de Kim Do-san. Porém, em meio a guerras e mudanças no governo, a indústria cinematográfica da, agora, Coréia do Sul, apenas ganhou força a partir da década de 1950. Com os lançamentos do filme “Madame Freedom” de Han Hyung-mo e das primeiras revistas dedicadas ao cinema. O povo tão reprimido utilizou o cinema como forma de expor sua visão politica, se rebelar, ter uma voz.

As revistas Fim World e International Fim foram responsáveis por mudar a relação do publico com os filmes e, principalmente, com as estrelas do cinema. Muito espaço era utilizado para entrevistas, fofocas e perfil dos artistas. No começo dos anos 1960 o star system da Coreia do Sul era comparável ao Hollywoodiano.

Desde os anos 1960 o governo tinha certo controle com os filmes através da censura, porém só a partir do fim da década de 1970 até meados de 1980, essa situação começou a atrapalhar os cineastas. Os filmes precisavam passar pela aprovação antes e depois de serem filmados, e também poderia haver a visita da comissão de censura a qualquer momento durante as filmagens. Nos anos 1980, protestos derrubaram Park Chung-hee do poder e instalaram uma forma de governo mais democrática.

“Até então, nosso cinema tinha pouco acabamento. Houve um clima entre os jovens diretores de se juntar e fazer uns filmes melhores. Durante a ditadura militar, os artistas foram muito agredidos e não puderam criar de acordo com sua imaginação. Foi preciso um intervalo.” Chan Wook Park.

Sem a ditadura controlando a indústria cinematográfica, os cineastas e cinema da Coreia do Sul foram crescendo e se desenvolvendo até chegar aos anos 1990, quando o país teve o que, geralmente, chamam de “Segunda Era de Ouro” do cinema nacional, é dito que o primeiro filme dessa nova era seria do diretor Je-gyu Kang, “Shiri” – que desbancou, inclusive, Titanic nas bilheterias da Coréia do Sul. Novamente revistas sobre cinema fizeram bastante sucesso, chamadas “Cine21”, “Screen” e “Kino” – a primeira focada nas celebridades e resenhas dos lançamentos da semana, algo mais comercial, e a última sendo dedicada a um público mais culto e ligado ao cinema mundial.

Nessa Segunda Era de Ouro, cineastas coreanos começaram a ser prestigiados em festivais de todo o mundo, diretores como Kim Ki-duk, Chan-wook Park e Lee Chang-dong, receberam prêmios em Berlim, Cannes e Veneza. A Coreia começou a conquistar espaço no cinema mundial, ampliando sua influência além das fronteiras culturais e geográficas as quais esteve presa durante todo esse tempo. Começando lentamente a levar seus produtos aos outros países do leste da Ásia, onde as barreiras de linguagem, costumes e tradições era menor.

Os filmes que arrebataram as bilheterias tanto da Coreia do Sul como os países próximos geralmente serviam a uma pratica de mercado onde os atores eram a parte mais importante deles. No caso, o que acontecia era que um ator virava o produto da indústria, ele serviria para cativar o público, então apareceria não só em filmes como em novelas, comerciais, essa pessoa deve gravar um cd, vão existir toy arts e vários tipos de merchandising ao redor dessa pessoa. Esse caso virou uma indústria a parte, tanto que hoje em dia, na Coreia do Sul existem universidades que ensinam os garotos ou garotas à virarem ídolos – especialmente teens, e a formarem, inclusive, boybands.

 Os filmes que ganharam espaço nos festivais ao redor do mundo eram, geralmente, filmes de autor que acabam não demonstrando ao publico internacional uma visão mais ampla dos filmes que estão sendo produzidos no país. É preciso também compreender que da época de lançamento e até pouco tempo atrás, filmes de diretores como Im Kwon Taek e Kim Ki Duk não são sucessos em seu país de origem. Em 2006, Kim Ki Duk chegou a publicamente reclamar que o publico da Coreia de Sul não se importa com seus filmes, tanto que seu filme de 2005, “The Bow”, exibido em Cannes passou em apenas um cinema do país.

Percebemos que há dois pontos de divisão no cinema da Coréia do Sul, o primeiro é que mesmo com o crescimento da produção nacional e valorização de tais filmes, ainda há uma barreira com os filmes de certos cineastas – quanto mais de autor e menos comerciais, maior é a rejeição. Para remediar tal situação, a indústria cinematográfica começou a analisar o padrão dos filmes que interessavam ao publico, e então podemos notar que, cada vez mais, os filmes coreanos resignificam os gêneros.  Os diretores não perdem sua voz para a indústria e vontade do publico, a grande questão é como o cineasta pode aplicar sua ousadia estética, seu olhar ou sua inventividade visual a serviço dos códigos de gênero.

Há vários filmes que tem êxito ao balancear os códigos dos gêneros e a visão do cineasta, vemos “Oldboy” filme de 2003, dirigido por Park Chan-Wook e que compõe a “Trilogia da Vingança” – que conta com “Mr. Vingança” (2002) e “Lady Vingaça” (2005). Um Thriller onde a vingança é retratada de forma extremamente crua, que mesmo com o plot sendo o mais clichê, homem é acusado da morte da mulher e quer descobrir quem tramou isso contra ele, consegue surpreender o público da Coreia do Sul e de todo o mundo, chamando até atenção de Hollywood – recebeu um remake em 2013 por Spike Lee, que foi um dos grandes fracassos do ano e dito pelos fãs do original como uma afronta ao filme. O jornalista do The Guardian, Steve Rose, analisa as diferenças do filme original com o que as convenções do ocidente esperam do filme de Spike Lee. Ele começa apontando que na lei da Coréia do Sul não é permitido usar armas de fogo, por isso a proteção do personagem principal é um machado, e não uma arma como seria o normal – Park Chan-Wook chegou a comentar, antes da estreia do filme, o quanto estaria ansioso para saber como as cenas seriam resolvidas numa indústria onde um tiro resolve tudo. O fato da Coreia do Sul, aponta o jornalista, viver com o terror de uma guerra que separou seu país e a possibilidade da Coreia do Norte viver se armando para uma futura, pode mexer com a psique dos coreanos, e faz com que as storylines de seus filmes sejam imprevisíveis e assustadoras. Um terceiro ponto é que os gêneros tão bem definidos em Hollywood não se aplicam ao cinema coreano – o próprio Oldboy além de thriller e ação, é classificado como drama.

No mesmo ano, Park Chan-Wook lançou seu primeiro filme Hollywoodiano, “Segredos de Sangue”, suspense influenciado por “A Sombra de uma Dúvida” (1943) de Hitchcock, que teve um sucesso relativo, porém deixou os fãs do cineasta se perguntando se o filme teria sido melhor se ele tivesse mais liberdade criativa, como acontecia na Coreia.

Atualmente vemos que os diretores provenientes da segunda era de ouro da Coreia do Sul se preocupam em manter o nome do país e a qualidade cinematografia em vista pelo mundo todo, existe certo receio de voltar ao esquecimento pelo Ocidente. Temos o exemplo Park Chan-Wook, Bong Joon-ho e outros diretores organizando o Mise-en-Scène Short Film Festival, que tem como principal foco revelar novos diretores que experimentam com a ideia de gênero e experimentação, que tanto fez bem ao cinema coreano. Filmes como “Save the Green Planet” do diretor Jang Jun-hwan que mistura screwball, sci-fi, conspiração interplanetária com thriller corporativo em roupagem videoclípica. Também essa preocupação de manter um diálogo com Hollywood e com as grandes produtoras asiáticas. Podemos notar que os diretores não se orgulham apenas de seus próprios filmes, mas também do senso de comunidade que foi criado na Coreia do Sul para manter o cinema deles vivo.

 LINKS SUGERIDOS:

Blog sobre toda a história do cinema coreano (em Inglês)
Entrevista com Park Chan-wook na Mostra de Cinema de São Paulo em 2013
Diferenças entre Oldboy de Spike Lee e Park Chan-wook (em Inglês)
http://cinesplendor.com.br/cinema-de-genero-a-coreia-dos-personagens/
http://www.contracampo.com.br/75/coreiadosul.htm
http://www.theguardian.com/film/2013/nov/29/old-boy-remake-south-korea-cinema. (em Inglês)
http://www.rottentomatoes.com/m/stoker_2013/ (em Inglês)

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s